Curadoria

 

Ana Cristina Cachola

> 8 de maio, 2016

 

Museu de Arte Contemporânea de Elvas

João Louro | Smuggling

 

 

A obra de João Louro tem uma predisposição constelatória, dispersa em referências, técnicas, linguagens e suportes distintos e, no entanto, agregada, de forma muito clara e coesa, em torno de um mesmo programa visual: a obra de arte enquanto forma de conhecimento trespassado pelo trabalho da cultura. Neste sentido, a validade artística das suas obras é acompanhada por uma validade epistémica – uma produção de conhecimento ‐ que consubstancia uma ética e uma estética das imagens que originam o mundo. Aquilo que João Louro faz com uma proficiência invulgar é congregar no seu gesto artístico a visualidade em toda a sua complexidade, uma visualidade de largo espectro que não é apenas a construção social da visão, mas a construção visual do social.

 

Os trabalhos apresentados nesta exposição (novas peças, na sua grande maioria) articulam o material e o simbólico num campo de diferenças, conflitos, relações tensionais entre o visível e o invisível, as imagens e as palavras. Os distintos elementos de que se serve – imagens e palavras, com maior fôlego – concorrem para o combate constante de Louro aos regimes escópicos instituídos, à matriz cultural e política que condiciona a forma como exercemos o olhar, à teia tecnológica que medeia os eventos visuais. "Smuggling" (contrabando, em português), título da exposição, insinua‐se como estratégia utilizada neste combate: um contrabando de significados entre os diversos sistemas sígnicos que permite observar as mais densas camadas da produção cultural, nas suas diferentes expressões (literária, cinematográfica, musical, teórica, vernácula, etc.). Permite, ainda, fazê‐lo de forma paralela aos fluxos simplificadores que transformam a informação em entretenimento ou o entretenimento em informação.

 

O contrabando é, na senda de Irit Rogoff (1), um modo de criação artística, crítica e epistemológica que percorre caminhos que se afastam de territórios cristalizados por consensos, espessuras monolíticas de saber, paradigmas ou formações discursivas sedimentadas pelas instituições do contemporâneo. O contrabando é um modelo, uma metodologia (a metodologia de João Louro) que permite o avanço, não no sentido positivo ou positivista, mas numa formulação sísmica que desencadeia uma destruição produtora de novas significações. É esta formulação sísmica que alcançam as obras de João Louro ao activarem, constantemente, e de forma violenta, as (inter‐)relações entre imagens e palavras.

 

Nesta exposição, o visual e o verbal – a visualidade da palavra e a verbalidade da imagem assumem‐se como dimensões que se deslocam num trânsito mutuamente constitutivo um contrabando –, que percorre caminhos alternativos às grandes vias da circulação de conteúdos. As obras apresentadas, em distintos media, são resultado destes trânsitos, produzem superfícies analíticas e apelam à literacia visual enquanto estratégia crítica do mundo contemporâneo. (2) Algumas obras – tomem‐se "Parlant Trahi par sa Parole" (2015), "AZERT" (2004) ou "História do Crime" (1999) enquanto exemplos agudos – mostram como as imagens podem (e devem) ser lidas e as palavras vistas. Este não é contudo um processo simplista de equivalência sígnica ou uma acção pedagógica sobre o espectador, é uma agressão à percepção passiva.

 

Não por acaso, a visualidade bélica ocupa lugar de relevo no discurso expositivo. A série de "Bilnd Images" dedicadas às imagens fotográficas da Batalha de Verdun, um dos principais confrontos da Primeira Grande Guerra, remete não só para um dos momentos primeiros da documentação fotográfica de conflitos armados como para agressão sensível que constitui a obliteração de uma imagem legendada. A guerra, também convocada em "Míssil TOMAHAWK" (2015) e "Míssil AGM‐84 E SLAM" (2015), dispositivos bélicos desenhados à escala real, instituí‐se enquanto estado de excepção, situação‐limite que obriga a uma nova cartografia simbólica (e muitas vezes geográfica) de apreensão do mundo.

 

O mapa que sempre deteve um carácter eminentemente político, configurando relações de poder e estabelecendo estruturas hierárquicas entre territórios, é a superfície imagética que, nesta exposição, em vários momentos e distintas obras, nos revela a constelação de João Louro. Por um lado, os exercícios cartográficos sempre serviram a estruturação de um conhecimento ancorado numa dependência mútua do visual e do verbal; por outro, desenharam a (im)possibilidade da imagem enquanto substituição do real. O contrabando, entendido enquanto movimento clandestino, não é mais que uma fuga à cartografia oficial, só acontecendo, no entanto, na sua presença.

 

Louro retém o interesse nos sistemas discursivos que espartilham e dirigem as possibilidades do olhar e, consequentemente, a mobilidade subjectiva, fazendo‐o para estilhaçar esses sistemas e reconfigurá‐los em imagens que funcionam como crítica da própria imagem. "Smuggling" é uma exposição‐revelação pois mostra não só as várias localizações que constituem a constelação de João Louro, ou seja, as obras na sua individualidade, mas a forma como se relacionam entre si: através de um contrabando de linguagens e significados; trocas, correspondências, questionamentos, refutações que percorrem caminhos densos, às vezes ilícitos, porque ocultos de convenções heurísticas.

 

Ana Cristina Cachola

 

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1) Rogoff avança esta tese no texto "Smuggling – An Embodied Criticality" (2006).

2) Isabel Capeloa Gil, na sua obra Literacia Visual. Estudos sobre a Inquietude das Imagens (2011), defende a literacia visual enquanto estratégia de cidadania.

Vista da exposição (detalhe) "Smuggling" de João Louro, Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Cortesia do artista, Cristina Guerra Contemporary Art,  Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Fotografia da exposição: João Miranda. 

Vista da exposição (detalhe) "Smuggling" de João Louro, Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Cortesia do artista, Cristina Guerra Contemporary Art,  Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Fotografia da exposição: João Miranda.