Júlio Pomar

e Rui Chafes

 

Desenhar

 

 

 

por Luísa Santos

 

 

A exposição Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar, no Atelier-Museu Júlio Pomar, é a primeira de um ciclo anual de encontros entre a obra de Pomar e a de outros artistas. Para este primeiro momento, Sara Antónia Matos propõe um diálogo inesperado entre Júlio Pomar (1926, Lisboa) e Rui Chafes (1966, Lisboa), dois artistas de gerações diferentes. Mas o mais interessante não é o número de anos que os separa ou a condição de, apesar da diferença de idades, ambos produzirem arte hoje, com todas as implicações deste acto de produção e reflexão no momento actual. O que é notável neste encontro é um meio partilhado - o desenho - numa partilha que não é óbvia.

 

Quando pensamos no trabalho de Rui Chafes, pensamos em esculturas pretas, volumes que ocupam espaço na sua tridimensionalidade. Já quando pensamos no trabalho de Júlio Pomar, pensamos em pintura e desenho como normalmente os entendemos – pontos, linhas, e volumes sobre superfícies bidimensionais. Para além dos meios de eleição claramente diferentes, enquanto os trabalhos de Rui Chafes assumem, quase sempre, uma identidade quieta, de um tempo suspenso, em Júlio Pomar estamos habituados à agitação, ao movimento das acções sejam elas mais abstractas ou mais fiéis a uma determinada realidade observada. Se antes de entrarmos na exposição, estranhamos a ideia de juntar estes dois artistas, quando entramos no Atelier-Museu Júlio Pomar, a estranheza transforma-se num sentimento de harmonia pela imersão nas possibilidades do desenho que aqui apresentam um equilíbrio perfeito entre as diferenças e semelhanças das formas que adoptam.

 

No primeiro piso do Atelier-Museu Júlio Pomar somos confrontados com a instalação As Tuas Mãos (1998-2013), de Rui Chafes. Mostrada pela primeira vez em 2013, na Galeria Karin Sachs, em Munique, aqui foi sujeita a uma montagem diferente, pensada de acordo com as características deste espaço, de linhas assertivas, projectado pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira. As formas ondulantes em chapa de ferro, pintado de negro, são, na verdade, linhas em movimento que se desenham no primeiro piso do Atelier-Museu Júlio Pomar. A tridimensionalidade desta instalação suspensa ao longo de um espaço inteiramente branco, com a excepção da parede habitada pelos 8 desenhos de Júlio Pomar da série Étreinte [Abraço] (1976-1979), conduz-nos para o domínio da página em branco com linhas e volumes a preto que reconhecemos como sendo do âmbito do desenho. A diferença crucial é que os desenhos bidimensionais não permitem entrada física e, aqui, ao entrarmos no espaço, entramos também, fisicamente por entre as linhas que formam As Tuas Mãos. Assim, ao entrarmos no espaço, entramos também num desenho, de um modo que nos torna parte dele, uma tarefa que parece impossível. Também notável é o modo como intuitivamente sabemos que podemos passar por entre aquelas linhas mas sempre com a devida distância, imposta por um desenho feito para ser observado mas também pelas esculturas de Rui Chafes, sempre para serem contempladas mas nunca tocadas.

 

Se pensarmos na etimologia da palavra desenho, somos levados a ideias diferentes e que ultrapassam o domínio bidimensional ao qual, regra geral, associamos o acto de desenhar. Segundo o arquitecto modernista Brasileiro João Batista Vilanova Artigas, a palavra desenho terá aparecido pela primeira vez, em Português, no final do século XVI, quando, segundo Varnhagen, D. João III, referia os desenhos do inimigo a propósito da invasão holandesa no Brasil. Há também outras formas da palavra em português como dessenho e disenho do mesmo século (1595) provenientes do latim designare e que implicam designar, marcar, traçar, notar, desenhar, indicar, dispor, ordenar, numa superação de um pretenso acto meramente físico ou imitativo e que entra no domínio do conceptual e do planeamento.

 

O que Sara Antónia Matos, curadora desta exposição e directora do Atelier-Museu Júlio Pomar, propõe com este primeiro encontro entre a obra de Júlio Pomar e a de Rui Chafes é, por um lado, uma interpretação dos significados e possibilidades do desenho pelas mãos dos dois artistas, com as diferenças que os caracterizam. Por outro lado, propõe um olhar sobre pontos de contacto temáticos dos seus modos de desenhar que dificilmente pensaríamos sem esta proximidade possibilitada por um diálogo num espaço partilhado.

 

Ao nível temático, o corpo com os seus mistérios e interpretações, será o ponto em que se podem discernir mais cruzamentos entre os dois artistas. Os 8 desenhos da série Étreinte [Abraço], de Júlio Pomar, foram produzidos enquanto ilustrações para o livro "Corpo Verde" (1979) de Maria Velho da Costa e, como tal, revelam o universo erótico partilhado pela autora e por Júlio Pomar, universo que também é caro a Rui Chafes. Os desenhos mostram corpos em movimento que se entrelaçam. Num diálogo perfeito, As Tuas Mãos co-habitam o mesmo espaço de Étreinte [Abraço]. Linhas de ferro, pretas, densas, parecem desenhar-se no ar, em movimento, tal como os corpos de Étreinte [Abraço] se desenham no papel. Já as extremidades redondas, e que ligam os vários elementos de As Tuas Mãos, são reminiscentes de coleiras ou algemas que aprisionam um corpo, numa dicotomia entre a liberdade do movimento e o controlo implícito ao acto de prender.

 

Na zona das escadas que ligam o primeiro ao segundo piso, encontramos Estudos de Nu /Caderno de Estudos de Nu (sem data), de Júlio Pomar. Aqui, os corpos femininos nus, mostram formas ondulantes que parecem continuar os movimentos das linhas de ferro de As Tuas Mãos. A aproximação temática, do fascínio pela representação do corpo, entre os dois artistas continua paulatinamente ao longo da exposição. O corpo não entra (1989), de Rui Chafes, é um conjunto de 16 peças em fimo (uma pasta moldável, com várias cores) exposto ao longo de duas vitrines encostadas à primeira parede a seguir às escadas que dão acesso ao segundo piso. Cada peça tem uma forma diferente mas sempre orgânica, no que poderiam ser representações de órgãos femininos ou de elementos da natureza que cabem numa mão. Estas formas são reminiscentes de algumas das esculturas de Louise Bourgeois (1911, Paris - 2010, Nova Iorque) no seu universo feminino e orgânico reflectido em trabalhos como a Amoeba (1963-65) que pode ser lido como um retrato da artista enquanto um organismo em mutação que irá desabrochar. 

 

Também no segundo piso, como que num prólogo a O corpo não entra, deparamo-nos com Estudos / Mãos (1953), de Júlio Pomar, com um carácter neo-realista muito diferenteda representação abstracta das mãos de As Tuas Mãos de Rui Chafes. Se por um lado há um afastamento formal, por outro lado, há uma clara aproximação conceptual ou temática: tratam-se de modos de ver e de entender as mãos enquanto meios de perceber o mundo pelo tacto e pela experiência sensorial.

 

Já os Desenhos do Caderno de Figueiras (sem data), de Júlio Pomar, apresentam-se de tal modo abstractos nas suas linhas e manchas, que permanecem no domínio da sugestão pelo título. Também aparentemente abstractas são as linhas que formam a instalação Penugem (2015), de Rui Chafes, que pode ser entendida como um epílogo da exposição. Em termos conceptuais, poderemos discorrer sobre as ligações ao universo feminino, atribuir a cada uma das 17 formas um corpo de perfil em que o pescoço aparece marcado pela extremidade redonda muito semelhante à de As Tuas Mãos, na alusão a coleiras ou algemas que aprisionam. Poderemos também pensar na importância do título e a sua possível ligação à inocência de mulheres que ainda são crianças. Contudo, neste caso, o aspectoformal é o mais notável: pensada e produzida para esta exposição-diálogo, Penugem indaga sobre a condição do desenho na medida em que existe com as suas linhas de ferro mas também com a difícil ausência de sombras sobre a parede de um tom entre o azul e o cinzento que o artista escolheu. A parede assume-se aqui como parte da instalação e parece questionar sobre os limites do desenho. Entre ver linhas pretas, a carvão e a grafite, sobre papéis a entrar em linhas pretas, de ferro, estamos, certamente a caminhar sobre universos diferentes. Mas ambos impõem uma distância – são corpos que podemos ver mas que não podemos tocar. E o ponto que será o de maior união destas obras de Júlio Pomar e de Rui Chafes é o acto de, através de linhas e de manchas, designarem, marcarem, traçarem, indicarem, disporem, ordenarem, um determinado espaço. Por outras palavras, desenharem, cada um com os seus meios eleitos.

 

 

 Luísa Santos

 

a autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

Júlio Pomar

e Rui Chafes

 

Desenhar

 

 

 

por Luísa Santos

 

 

A exposição Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar, no Atelier-Museu Júlio Pomar, é a primeira de um ciclo anual de encontros entre a obra de Pomar e a de outros artistas. Para este primeiro momento, Sara Antónia Matos propõe um diálogo inesperado entre Júlio Pomar (1926, Lisboa) e Rui Chafes (1966, Lisboa), dois artistas de gerações diferentes. Mas o mais interessante não é o número de anos que os separa ou a condição de, apesar da diferença de idades, ambos produzirem arte hoje, com todas as implicações deste acto de produção e reflexão no momento actual. O que é notável neste encontro é um meio partilhado - o desenho - numa partilha que não é óbvia.

 

Quando pensamos no trabalho de Rui Chafes, pensamos em esculturas pretas, volumes que ocupam espaço na sua tridimensionalidade. Já quando pensamos no trabalho de Júlio Pomar, pensamos em pintura e desenho como normalmente os entendemos – pontos, linhas, e volumes sobre superfícies bidimensionais. Para além dos meios de eleição claramente diferentes, enquanto os trabalhos de Rui Chafes assumem, quase sempre, uma identidade quieta, de um tempo suspenso, em Júlio Pomar estamos habituados à agitação, ao movimento das acções sejam elas mais abstractas ou mais fiéis a uma determinada realidade observada. Se antes de entrarmos na exposição, estranhamos a ideia de juntar estes dois artistas, quando entramos no Atelier-Museu Júlio Pomar, a estranheza transforma-se num sentimento de harmonia pela imersão nas possibilidades do desenho que aqui apresentam um equilíbrio perfeito entre as diferenças e semelhanças das formas que adoptam.

 

No primeiro piso do Atelier-Museu Júlio Pomar somos confrontados com a instalação As Tuas Mãos (1998-2013), de Rui Chafes. Mostrada pela primeira vez em 2013, na Galeria Karin Sachs, em Munique, aqui foi sujeita a uma montagem diferente, pensada de acordo com as características deste espaço, de linhas assertivas, projectado pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira. As formas ondulantes em chapa de ferro, pintado de negro, são, na verdade, linhas em movimento que se desenham no primeiro piso do Atelier-Museu Júlio Pomar. A tridimensionalidade desta instalação suspensa ao longo de um espaço inteiramente branco, com a excepção da parede habitada pelos 8 desenhos de Júlio Pomar da série Étreinte [Abraço] (1976-1979), conduz-nos para o domínio da página em branco com linhas e volumes a preto que reconhecemos como sendo do âmbito do desenho. A diferença crucial é que os desenhos bidimensionais não permitem entrada física e, aqui, ao entrarmos no espaço, entramos também, fisicamente por entre as linhas que formam As Tuas Mãos. Assim, ao entrarmos no espaço, entramos também num desenho, de um modo que nos torna parte dele, uma tarefa que parece impossível. Também notável é o modo como intuitivamente sabemos que podemos passar por entre aquelas linhas mas sempre com a devida distância, imposta por um desenho feito para ser observado mas também pelas esculturas de Rui Chafes, sempre para serem contempladas mas nunca tocadas.

 

Se pensarmos na etimologia da palavra desenho, somos levados a ideias diferentes e que ultrapassam o domínio bidimensional ao qual, regra geral, associamos o acto de desenhar. Segundo o arquitecto modernista Brasileiro João Batista Vilanova Artigas, a palavra desenho terá aparecido pela primeira vez, em Português, no final do século XVI, quando, segundo Varnhagen, D. João III, referia os desenhos do inimigo a propósito da invasão holandesa no Brasil. Há também outras formas da palavra em português como dessenho e disenho do mesmo século (1595) provenientes do latim designare e que implicam designar, marcar, traçar, notar, desenhar, indicar, dispor, ordenar, numa superação de um pretenso acto meramente físico ou imitativo e que entra no domínio do conceptual e do planeamento.

 

O que Sara Antónia Matos, curadora desta exposição e directora do Atelier-Museu Júlio Pomar, propõe com este primeiro encontro entre a obra de Júlio Pomar e a de Rui Chafes é, por um lado, uma interpretação dos significados e possibilidades do desenho pelas mãos dos dois artistas, com as diferenças que os caracterizam. Por outro lado, propõe um olhar sobre pontos de contacto temáticos dos seus modos de desenhar que dificilmente pensaríamos sem esta proximidade possibilitada por um diálogo num espaço partilhado.

 

Ao nível temático, o corpo com os seus mistérios e interpretações, será o ponto em que se podem discernir mais cruzamentos entre os dois artistas. Os 8 desenhos da série Étreinte [Abraço], de Júlio Pomar, foram produzidos enquanto ilustrações para o livro "Corpo Verde" (1979) de Maria Velho da Costa e, como tal, revelam o universo erótico partilhado pela autora e por Júlio Pomar, universo que também é caro a Rui Chafes. Os desenhos mostram corpos em movimento que se entrelaçam. Num diálogo perfeito, As Tuas Mãos co-habitam o mesmo espaço de Étreinte [Abraço]. Linhas de ferro, pretas, densas, parecem desenhar-se no ar, em movimento, tal como os corpos de Étreinte [Abraço] se desenham no papel. Já as extremidades redondas, e que ligam os vários elementos de As Tuas Mãos, são reminiscentes de coleiras ou algemas que aprisionam um corpo, numa dicotomia entre a liberdade do movimento e o controlo implícito ao acto de prender.

 

Na zona das escadas que ligam o primeiro ao segundo piso, encontramos Estudos de Nu /Caderno de Estudos de Nu (sem data), de Júlio Pomar. Aqui, os corpos femininos nus, mostram formas ondulantes que parecem continuar os movimentos das linhas de ferro de As Tuas Mãos. A aproximação temática, do fascínio pela representação do corpo, entre os dois artistas continua paulatinamente ao longo da exposição. O corpo não entra (1989), de Rui Chafes, é um conjunto de 16 peças em fimo (uma pasta moldável, com várias cores) exposto ao longo de duas vitrines encostadas à primeira parede a seguir às escadas que dão acesso ao segundo piso. Cada peça tem uma forma diferente mas sempre orgânica, no que poderiam ser representações de órgãos femininos ou de elementos da natureza que cabem numa mão. Estas formas são reminiscentes de algumas das esculturas de Louise Bourgeois (1911, Paris - 2010, Nova Iorque) no seu universo feminino e orgânico reflectido em trabalhos como a Amoeba (1963-65) que pode ser lido como um retrato da artista enquanto um organismo em mutação que irá desabrochar. 

 

Também no segundo piso, como que num prólogo a O corpo não entra, deparamo-nos com Estudos / Mãos (1953), de Júlio Pomar, com um carácter neo-realista muito diferenteda representação abstracta das mãos de As Tuas Mãos de Rui Chafes. Se por um lado há um afastamento formal, por outro lado, há uma clara aproximação conceptual ou temática: tratam-se de modos de ver e de entender as mãos enquanto meios de perceber o mundo pelo tacto e pela experiência sensorial.

 

Já os Desenhos do Caderno de Figueiras (sem data), de Júlio Pomar, apresentam-se de tal modo abstractos nas suas linhas e manchas, que permanecem no domínio da sugestão pelo título. Também aparentemente abstractas são as linhas que formam a instalação Penugem (2015), de Rui Chafes, que pode ser entendida como um epílogo da exposição. Em termos conceptuais, poderemos discorrer sobre as ligações ao universo feminino, atribuir a cada uma das 17 formas um corpo de perfil em que o pescoço aparece marcado pela extremidade redonda muito semelhante à de As Tuas Mãos, na alusão a coleiras ou algemas que aprisionam. Poderemos também pensar na importância do título e a sua possível ligação à inocência de mulheres que ainda são crianças. Contudo, neste caso, o aspectoformal é o mais notável: pensada e produzida para esta exposição-diálogo, Penugem indaga sobre a condição do desenho na medida em que existe com as suas linhas de ferro mas também com a difícil ausência de sombras sobre a parede de um tom entre o azul e o cinzento que o artista escolheu. A parede assume-se aqui como parte da instalação e parece questionar sobre os limites do desenho. Entre ver linhas pretas, a carvão e a grafite, sobre papéis a entrar em linhas pretas, de ferro, estamos, certamente a caminhar sobre universos diferentes. Mas ambos impõem uma distância – são corpos que podemos ver mas que não podemos tocar. E o ponto que será o de maior união destas obras de Júlio Pomar e de Rui Chafes é o acto de, através de linhas e de manchas, designarem, marcarem, traçarem, indicarem, disporem, ordenarem, um determinado espaço. Por outras palavras, desenharem, cada um com os seus meios eleitos.

 

 

 Luísa Santos

 

a autora escreve de acordo com a antiga ortografia.