Luís Lázaro Matos
por Maria Beatriz Marquilhas
Super Gibraltar dá nome à primeira exposição individual de Luís Lázaro Matos em Portugal e é uma porta de entrada para o universo criativo que o artista tem vindo a desenvolver. Mitos, crenças ou simples ideias são extrapolados pelo artista com uma audácia peculiar e com uma inclinação para a megalomania, para o humor e até para um certo delírio.
Tendo como ponto de partida um texto de Ferreira de Castro publicado em 1942 na revista A Volta ao Mundo, a exposição Super Gibraltar aborda uma superstição que afirma que enquanto o macaco-de-gibraltar continuar a habitar o Rochedo de Gibraltar, o domínio britânico do território estará assegurado. Ao ditar que a estabilidade e manutenção de um império é o corolário da reprodução de uma espécie animal, a crença narrada por Ferreira de Castro esboça uma ligação entre um factor ecológico e uma questão geopolítica. Luís Lázaro Matos associa esta ideia ao conceito de "futurismo reprodutor", que estabelece uma relação de causalidade entre a capacidade reprodutiva de uma espécie e o futuro da mesma, teorizado por Lee Edelman [i] e explorado anteriormente pelo artista na performance Voilá! Architecture Manifesto! (EDP Novos Artistas, 2012).
O absurdo implícito na ideia de que, para que Gibraltar permaneça sob domínio britânico, basta que o macaco-de-gibraltar garanta a sua continuidade reprodutiva, mantendo-se no Rochedo do estreito, está na origem, em Super Gibraltar, de uma inversão da evolução das espécies tal como é afirmada pelo darwinismo. A subversão de uma linearidade evolutiva que culminaria no homo sapiens - cuja racionalidade que o distingue parece estar arredada na superstição relatada por Ferreira de Castro - leva o artista à criação de uma personagem. É-nos apresentado um macaco-de-gibraltar, animal que actualmente se pode apenas encontrar em algumas zonas dos Montes Atlas, no norte de África e no Rochedo de Gibraltar, mas aqui metamorfoseado, com traços de peixe ou de sereia. Os óculos de sol e a postura assumidamente diletante e ociosa que ostenta indicam também uma antropomorfização do animal.
Ao entrar no espaço da exposição somos envolvidos por uma atmosfera tropical onde as paredes estão pintadas de um verde azulado com um padrão que desenha ondulações marinhas. Ouve-se o hit de 1977 de Donna Summer I Feel Love. Super Gibraltar I (2015) apresenta-nos um vídeo onde, sobre uma fotografia de Gibraltar, podemos ver um macaco-de-gibraltar metamorfoseado com uma cauda de sereia que, sobre o monumental rochedo de Gibraltar que recorta um céu rosado, vai adoptando diferentes posições, num ritmo ocioso e festivo.
Ocupando todo o centro da sala, Super Gibraltar II (2015) dá nome a uma série de t-shirts em papel agrafado, onde pequenos macacos-de-gibraltar com rabos de peixe e partes de corpos nus surgem por entre folhagens e com as ondas do mar como fundo, sozinhos ou aos pares, a festejar ou a descansar, numa deflagração de cor, movimento e lascívia. As peças estão ordenadamente colocadas com cabides sobre um tubo de antena, dando a impressão de estarem suspensas no espaço.
Numa parede ao fundo da sala temos Super Gibraltar III (2015), um desenho no qual o Rochedo de Gibraltar é prolongado por uma estrutura com vários estratos que entra pelo mar. Essa estrutura representa a mesma personagem que surge nas outras peças, um ser metade macaco-de-gibraltar, metade sereia, com os mesmos óculos-se-sol, numa descontraída pose de diva. Como se se tratasse de um ícone de Gibraltar, convertido numa imagem turística de boas-vindas ou num letreiro personificado, parece convidar a um estilo de vida diletante e festivo onde reinam a boémia e a extravagância.
Luís Lázaro Matos resgata aqui um ponto geográfico concreto para nele inscrever um enredo ficcional, tal como fez em 2013 na série Houses on Punta Massullo / Houses for Exile. A efabulação de uma ideia, com um reiterado recurso à ironia e à hipérbole e aliado ao positivismo geométrico da arquitectura conferem ao trabalho do artista um equilíbrio que oscila entre realidade e fantasia. O espaço arquitectónico e geográfico parece surgir como ponto de ancoragem com o mundo real para que a partir deste se crie uma narrativa que se distingue pelo absurdo e pelo exagero.
A denúncia de certos embustes sociais e políticos, subtilmente elaborada e dissimulada numa estética diletante, megalómana e hedonista, não é inédita no percurso artístico de Luís Lázaro Matos. "Fazer as coisas por puro prazer, como ética, pode encerrar em si uma postura bastante política"[iii], assevera o artista.
Super Gibraltar surge assim como uma celebração do que temos de animal, imponderado e instintivo conjugada com uma abordagem um tanto sarcástica da artificialidade actualmente intrínseca aos modos de festejar ou de descansar, patente na indústria massificada do turismo, com todos os seus chavões publicitários. De um ponto de vista geológico, Gibraltar surge como ponto de convergência e divergência entre esses dois mundos, uma vez que o estreito resulta da fissura das placas tectónicas eurasiática e africana. O conceito de império, aqui subvertido pelo absurdo da superstição do macaco-de-gibraltar, é admitido na medida em que esse "futurismo reprodutor" é posto em prática. Partindo dessa premissa, o artista exponencia essa realidade ao criar um microcosmos onde os seres vivem, exclusivamente, para se reproduzirem. Para, como Donna Summer, "sentirem amor".
Maria Beatriz Marquilhas
a autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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[i] Citado por Luís Lázaro Matos numa conversa entre o artista, João Mourão e Luís Silva a propósito da exposição Super Gibraltar e publicada na folha desala da mesma, Kunsthalle Lissabon, Outubro de 2015.
[ii] Lee Edelman, No Future: Queer Theory and the Death Drive, Duke University Press, 2004.
[iii]Luís Lázaro Matos, conversa entre o artista, João Mourão e Luís Silva a propósito da exposição Super Gibraltar e publicada na folha de sala da mesma, Kunsthalle Lissabon, Outubro de 2015.
Imagem: Luís Lázaro Matos, Super Gibraltar, Kunsthalle Lissabon, Lisboa, 2015. Vista da exposição: Super Gibraltar II e III, 2015. Fotografia: Bruno Lopes.