Pode a criação de uma instituição, no seu âmago, corresponder a um gesto performativo de questionamento das estruturas institucionais que regulam a produção artística? O que define afinal uma instituição? Quais são as insígnias que ditam essa institucionalidade? Pode uma instituição sê-lo, recusando as lógicas e práticas dominantes? A criação e manutenção de uma instituição podem corresponder a uma experiência social? E não o serão invariavelmente? 

 

 

A discussão é lançada em 2009 quando João Mourão e Luís Silva, dois jovens curadores então insatisfeitos com a oferta artística na cidade de Lisboa e com os modelos institucionais em vigor, decidem fundar a Kunsthalle Lissabon: "Nós queríamos iniciar uma discussão com as pessoas sobre o que era a instituição e acreditávamos que a forma de iniciar essa discussão era através da ideia de embuste." Até a escolha do nome - Kunsthalle Lissabon -, com um histórico e internacional cunho institucional, parece surgir como uma paródia à noção de instituição. Aquilo que o público espera de uma Kunsthalle seria suficiente para que esta se tornasse uma Kunsthalle como todas as outras? "Nessa zona de fricção entre expectativas e realidade podia-se criar um debate sobre isso ser ou não uma instituição, ou ser uma instituição falsa, um embuste. Nós achávamos que era um embuste, mas a própria noção de instituição como embuste era um embuste."

 

Aquilo que se desenvolve, tendo como ponto de partida a institucionalização de um embuste, tem sido, nos últimos seis anos, um dos projectos artísticos que mais dinamismo imprime no panorama artístico da cidade de Lisboa. Artistas como Melvin Moti (Holanda), Jonathas de Andrade (Brasil), Mariana Castillo Deball (México), Amalia Pica (Argentina), Mounira Al Solh (Líbano) ou Katja Novitskova (Estónia), entre tantos outros, exibiram pela primeira vez em Portugal na Kunsthalle Lissabon. Se tudo começou como uma experiência, três anos depois os resultados dessa experiência tornam-se demasiado evidentes para que o discurso do embuste se mantenha. "Estávamos tão embrenhados nesta retórica do embuste que não nos apercebemos que a experiência tinha chegado ao fim, o resultado já ali estava à nossa frente, toda a gente nos assumia como uma instituição, localmente e também internacionalmente. Esse foi um momento muito curioso do ponto de vista do projecto porque aquela posição crítica já não era sustentável." O gesto performativo mantém-se mas tendo como ponto de partida a existência assumida de uma instituição. "Sim, tornámo-nos uma instituição. Uma instituição completamente diferente. A vantagem de tudo isso é que acreditamos ter aberto de alguma forma o campo de possibilidades para as instituições."

Melvin Moti, Echo chamber (pormenor), 2012, vidro. Foto: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabon.

Jonathas de Andrade, Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste, 2013, instalação, 60 cartazes, expositores, documentação. Foto: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabon.

Amalia Pica, Memorial for intersections #1, 2013, ferro pintado e acrílico. Foto: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Kunsthalle Lissabon.

Mariana Castillo Deball, Do ut des, 2014, livros perfurados. Foto: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Kunsthalle Lissabon.

Definida como um "ponto de vista" para o futuro, a Kunsthalle Lissabon desenvolve a sua actividade numa tentativa incessante de adequação aos modelos idealizados e em constante actualização. "A Kunsthalle Lissabon é um projecto que assenta, por um lado, na reflexão institucional e, por outro, num exercício prospectivo, que pode ser descrito de forma muito simplista pela tentativa de imaginar um modelo de acção institucional que faça mais sentido para nós enquanto curadores." Nesse sentido, a instituição é a realização e materialização de um conjunto de ideais de diferentes naturezas: "É um exercício de projecção, no presente, do que o futuro pode vir a ser, um futuro mais justo, mais ético, mais adequado, intelectualmente mais desafiante, que recuse a simplificação e opopulismo. Basicamente é produzir o futuro, e esse é o ponto de vista." Transvazando o domínio meramente artístico, a Kunsthalle assume-se como epicentro para a reflexão política que resulta em práticas que correspondem a tomadas de posição. É um jogo de ampliação de escalas baseado na convicção de que tudo o que pode ser feito pode sê-lo de um modo politicamente mais congruente e íntegro. "Olhamos para o mundo e tentamos mudá-lo, à nossa escala, numa instituição dedicada às artes plásticas."

 

O trabalho desenvolvido pela Kunsthalle tem sido abordado pelos seus fundadores como uma experiência que, enquanto tal, se vai moldando aos resultados da "investigação" em curso. Primeiro compreenderam que uma instituição é uma "formação discursiva, subjectiva e fundamentalmente social, um conjunto de protocolos socialmente definidos" e que, por esse motivo, nenhuma instituição pode ser imutável. É também um cruzamento, mais ou menos harmonioso, de um conjunto de ideias puramente teóricas com uma série de questões pragmáticas. De seguida, surge aquela que parece ser a lição mais assimilada - e revelada - pela Kunsthalle: os alicerces de qualquer instituiçãosão as relações humanas. É neste contexto que surge a noção de "hospitalidade radical" que, com uma interpretação muito própria, é opilar que sustenta a Kunsthalle Lissabon enquanto processo. "Se pensássemos nisto como um esquema económico-produtivo, em que o motor fosse a hospitalidade radical, as matérias-primas da instituição seriam a solidariedade (ajudarmo-nos uns aos outros), a generosidade (dar) e a sociabilidade (estarmos juntos, passarmos tempo juntos, ainda que isso não se materialize em nada). Isto são os recursos de que a instituição depende para funcionar, aquilo de que precisamos para operar. Depois, o que produzimos, o resultado final da nossa actividade institucional é o pensamento, a amizade e a esfera pública."

 

Mais do que assumir que as relações humanas são a pedra de toque de qualquer instituição ou actividade social trata-se de "reinvestir um conceito tão genérico como o de amizade de potencial crítico". Trabalhar numa relação de proximidade com os artistas é algo que acontece nos bastidores e que, por esse motivo, poderia ter pouca visibilidade para o público. Contudo, a intimidade entre o artista e o curador parece ser a espinha dorsal do trabalho da Kunsthalle Lissabon, perceptível a cada exposição, publicação, projecto ou entrevista. "As exposições que decorrem na Kunsthalle Lissabon materializam, para além de um gesto artístico, um conjunto de relações que se estabelecem com cada artista com quem trabalhamos. Uma exposição como materialização de um processo de colaboração e proximidade."

Definida como um "ponto de vista" para o futuro, a Kunsthalle Lissabon desenvolve a sua actividade numa tentativa incessante de adequação aos modelos idealizados e em constante actualização. "A Kunsthalle Lissabon é um projecto que assenta, por um lado, na reflexão institucional e, por outro, num exercício prospectivo, que pode ser descrito de forma muito simplista pela tentativa de imaginar um modelo de acção institucional que faça mais sentido para nós enquanto curadores." Nesse sentido, a instituição é a realização e materialização de um conjunto de ideais de diferentes naturezas: "É um exercício de projecção, no presente, do que o futuro pode vir a ser, um futuro mais justo, mais ético, mais adequado, intelectualmente mais desafiante, que recuse a simplificação e opopulismo. Basicamente é produzir o futuro, e esse é o ponto de vista." Transvazando o domínio meramente artístico, a Kunsthalle assume-se como epicentro para a reflexão política que resulta em práticas que correspondem a tomadas de posição. É um jogo de ampliação de escalas baseado na convicção de que tudo o que pode ser feito pode sê-lo de um modo politicamente mais congruente e íntegro. "Olhamos para o mundo e tentamos mudá-lo, à nossa escala, numa instituição dedicada às artes plásticas."

 

O trabalho desenvolvido pela Kunsthalle tem sido abordado pelos seus fundadores como uma experiência que, enquanto tal, se vai moldando aos resultados da "investigação" em curso. Primeiro compreenderam que uma instituição é uma "formação discursiva, subjectiva e fundamentalmente social, um conjunto de protocolos socialmente definidos" e que, por esse motivo, nenhuma instituição pode ser imutável. É também um cruzamento, mais ou menos harmonioso, de um conjunto de ideias puramente teóricas com uma série de questões pragmáticas. De seguida, surge aquela que parece ser a lição mais assimilada - e revelada - pela Kunsthalle: os alicerces de qualquer instituiçãosão as relações humanas. É neste contexto que surge a noção de "hospitalidade radical" que, com uma interpretação muito própria, é opilar que sustenta a Kunsthalle Lissabon enquanto processo. "Se pensássemos nisto como um esquema económico-produtivo, em que o motor fosse a hospitalidade radical, as matérias-primas da instituição seriam a solidariedade (ajudarmo-nos uns aos outros), a generosidade (dar) e a sociabilidade (estarmos juntos, passarmos tempo juntos, ainda que isso não se materialize em nada). Isto são os recursos de que a instituição depende para funcionar, aquilo de que precisamos para operar. Depois, o que produzimos, o resultado final da nossa actividade institucional é o pensamento, a amizade e a esfera pública."

 

Mais do que assumir que as relações humanas são a pedra de toque de qualquer instituição ou actividade social trata-se de "reinvestir um conceito tão genérico como o de amizade de potencial crítico". Trabalhar numa relação de proximidade com os artistas é algo que acontece nos bastidores e que, por esse motivo, poderia ter pouca visibilidade para o público. Contudo, a intimidade entre o artista e o curador parece ser a espinha dorsal do trabalho da Kunsthalle Lissabon, perceptível a cada exposição, publicação, projecto ou entrevista. "As exposições que decorrem na Kunsthalle Lissabon materializam, para além de um gesto artístico, um conjunto de relações que se estabelecem com cada artista com quem trabalhamos. Uma exposição como materialização de um processo de colaboração e proximidade."