Vera Cortês Art Agency

 

Lisboa

 

> 16 janeiro, 2016

Vista parcial da exposição Wilderness de Nuno da Luz. Vera Cortês Art Agency, Lisboa. Cortesia do artista e Vera Cortês Art Agency. Fotografia: Bruno Lopes.

Wilderness, a mais recente exposição de Nuno da Luz na Vera Cortês Art Agency, distancia-se de projetos anteriores do artista, na medida em que o corpo de trabalho que apresenta não se organiza em torno de uma narrativa ou um conceito específicos, antes convocando uma constelação aparentemente intuitiva de obras que inclui algumas desenvolvidas especificamente para a exposição bem como outras que acompanham o artista há já bastante tempo e que convocam, no

seu conjunto, diferentes processos de trabalho, diferentes suportes e diferentes narrativas. 

 

Apesar da diversidade dos trabalhos apresentados, bem como dos seus suportes, o título da exposição, Wilderness, dá conta de um conjunto de reflexões críticas sobre a construção e reprodução do conceito de "wilderness" (a tradução para português é ingrata e existe algo que se perde nesse processo, mas pensemos nele como um território selvagem, livre e/ou a conquistar, no qual a presença humana é rarefeita), que são centrais para a maneira como o artista articula as obras no espaço discursivo que configura a exposição. Mais especificamente, da Luz assume a centralidade do conceito na edificação de identidades nacionais coloniais construídas sob o sucessivo apagamento da história e presença de populações indígenas, que habitavam estes espaços antes da chegada dos europeus. Simultaneamente, a narrativa ocidental da defesa da natureza, desta "wilderness", como legado natural e selvagem a preservar, escamoteia o facto destas áreas terem sido, na maioria das vezes, violentamente despovoadas, para serem posteriormente mantidas em equilíbrios ecológicos instáveis, em nome dum caráter estático que lhes foi imposto. Inversamente, espaços não identificados enquanto "natureza selvagem" são objeto de destruição e exploração em massa, implicando tudo isto, acima de tudo, uma radical descontinuidade entre natureza e cultura, entre humano e não-humano.

 

A da Luz interessa-lhe assim tentar reapropriar-se do termo "wilderness" e proceder à tentativa da sua descolonização; a possível resposta à descontinuidade radical da dialética natureza/cultura passa por uma reconfiguração radical das nossas relações com o Outro. Wilderness é, desse ponto de vista, não apenas um conjunto de reflexões, mas o que une, sustenta e articula os elementos da

exposição. Assim, todas as obras propõem, ainda que de forma aparentemente enviesada ou hermética, a possibilidade da ideia de criar comunidade, não num sentido histórico-político do fazer comunidade, mas antes através de uma noção muito própria de arqueologia invertida onde materiais recentes, nossos contemporâneos, industriais, pré-fabricados, adquiridos em processos de troca comercial, que podemos reconhecer facilmente como objetos utilitários, ou domésticos (lâmpadas, uma cortina, um relógio, skates, por exemplo), apontam para uma nova forma de animismo.

A exposição procura então reconstituir o que poderá ser a nossa "wilderness", não como "natureza" ou como uma forma de diálogo inter-espécies, mas antes como diálogo entre formas de vida e formas de não-vida, assumindo a noção de artificialidade também, e talvez sobretudo, como elemento fundamental do que é esse "outro". Não um "mundo-sem-nós" mas um território imensamente

povoado de presenças e intenções, e consequentemente, parte integrante daquilo que somos, para além de qualquer dicotomia humano/não humano.

 

Luís Silva

Vista parcial da exposição Wilderness de Nuno da Luz. Vera Cortês Art Agency, Lisboa. Cortesia do artista e Vera Cortês Art Agency. Fotografia: Bruno Lopes.

Vista parcial da exposição Wilderness de Nuno da Luz. Vera Cortês Art Agency, Lisboa. Cortesia do artista e Vera Cortês Art Agency. Fotografia: Bruno Lopes.

Vista parcial da exposição Wilderness de Nuno da Luz. Vera Cortês Art Agency, Lisboa. Cortesia do artista e Vera Cortês Art Agency. Fotografia: Bruno Lopes.

Vista parcial da exposição Wilderness de Nuno da Luz. Vera Cortês Art Agency, Lisboa. Cortesia do artista e Vera Cortês Art Agency. Fotografia: Bruno Lopes.