Objectos voláteis nem
sempre identificáveis
na obra de Luís Alegre

Por
Luís Alegre, vista da exposição 'All this happened, more or less', Quarto 22 - Colégio das Artes de Coimbra, 2015-16. Cortesia do artista e Colégio das Artes de Coimbra.
Pedro Cabral Santo
Se admitirmos a ideia de que, artisticamente, vivemos um tempo difícil, uma existência epocal marcada por um forte e activo hibridismo – capaz de tocar, inegavelmente, a multiplicidade disciplinar envolvente e os seus limites, bem como o carácter necessariamente universal que as engloba – pomo-nos imediatamente em alerta, pelo menos laranja.
Todavia, também sabemos que o esforço desenvolvido em torno da percepção e daquilo que é a exegese da imagem visual, se mantém válido, mesmo tendo-se em conta aquilo que é possível entender-se como razoável face às diversas situações com que diariamente somos confrontados – as imagens visuais são nos nossos dias disparos incontinentes, nem mais, nem menos. Nesta senda, a produção de realidade – cujo intuito não é senão continuar a visar a possibilidade de Representar, implicando no processoa própria realidade, cuja sofisticação nos obriga aqui e ali a socorrer-nos das imensas linguagens artísticas que temos ao nosso dispor – é ainda algo de salutar, de maravilhoso.
Se é certo que essa necessidade de realidade, de quotidiano, se impõe, também é certo que a ciência a procura investigar e que é, por outro lado, no resguardo do imaginário pessoal dos artistas que é talvez possível desenvolver uma combinação, diríamos, de sentidos múltiplos que, e apesar das constantes transformações e reformulações, ou como Bonami (1994) afirma: nos parece ser naturalis, naturalis – essência artística. E, sendo tal premissa verdadeira, a ideia de autenticidade continuará válida. Luís Alegre consegue devolver-nos essa ideia, essa esperança.
No interior das cosmologias e das cosmogonias, idealiza-se uma concepção do universo e da sua criação, cujos céus (the sky is dark outsider and blue inside) tudo organizam, gerando um efeito de isotropia, que significa literalmente – semelhante em todas as direcções. Essa peculiar natureza, por exemplo, foi a que permitiu à geometria servir também de base à construção das figuras à qual recorreram os pintores renascentistas paraa elaboração da perspectiva cónica e do dispositivo perspéctico nos inícios do séc. XV. [1]
Estamos a falar, na verdade, de um legado que foi capaz de produzir um pensamento deveras eficaz que, entre muitas outras coisas, nos permitiu aprofundar o(s) entendimento(s) em torno da natureza da(s) forma(s) e das suas relações. Recordem-se, a esse propósito, as palavras de Henri Focillon (1988), quando afirmava que, na diversidade formal que subjaz às obras e aos seus contextos, parecia existir semelhanças com comportamentos de outra ordem. E dava exemplo evocando, justamente e a título de exemplo, os sistemas biológicos, equiparando assim a obra artística à criação divina ou, de uma forma impetuosa, Deus à Arte – ambos se constituem a partir de uma ordem que é uma metáfora do universo.
A abordagem da exposição de Luís Alegre intitulada All this happened, more or less, 22 pinturas de acrílico e aguarela s/ papel, cada qual com 15x21 cm, suscita-nos tudo de que acabámos de falar. Comecemos pelo princípio. As imagens que Alegre nos mostra, num primeiro plano, apresentam-se como uma autêntica investida de carácter experimental, rico e diverso nas temáticas e também nos pretextos. Vinte e duas imagens que nos transportam para uma ideia que, ao mesmo tempo, assume a aparência de uma só imagem, valorizada pelo valor da unidade, ou seja, cada imagem da exposição de Luís Alegre apresenta uma figura inserida "no espaço de uma determinada forma", sendo que no total estamos afalar de cenas que surgem com os meios necessários para que a sua existência decorra como se fosse apenas uma. Este efeito é reforçado pela estratégia que Luís Alegre empregou – encontram-se dispostas num biombo circular, uma espécie de dispositivo panóptico que centraliza o espectador, provocando o olhar multilateral e, a partir deste, também a observação do mesmo a partir das imagens.

Luís Alegre, vista da exposição 'All this happened, more or less', Quarto 22 - Colégio das Artes de Coimbra, 2015-16. Cortesia do artista e Colégio das Artes de Coimbra.
As imagens, em si mesmas, efabulam acerca de um imaginário narrativo que percorre a essência de um dos mitos urbanos mais prementes e impactantes da sociedade ocidental, o fenómeno UFO. A ideia de que existe vida extraterrestre, controle extraterrestre, vigilância extraterrestre. Enfim, cada unidade, cada parcela, cada detalhe conta-nos, acrescenta, um pormenor, uma etapa, dessa imensa aventurosa paranóica-deliciosa. Narrativas que quase cumprem as funções das seculares predellas [2], que nos contam uma história, é certo, mas que também nos dão conta de uma noção de um fino agrupamento entre as imagens, nomeadamente porque elas mesmas apelam à ideia de comunidade e sugerem a coexistência de um mesmo espaço, como acontecia em parte com a pintura proto-renascentista [3].
Vejamos, o trabalho intitulado Earth is being visited by intelligently controlled vehicles from off the Earth, uma composição que nos mostra um personagem militarizado sentado no lombo de um elefante de pequenas orelhas e aconchegado a uma metralhadora que também se encontra incrustada no lombo do animal. Aponta-se baterias para um objecto que se encontra a pairar no Céu, um UFO? A imagem que se segue é Control Station, a cena que fecha e abre também o ciclo, e retrata um "velhinho" Arcade game [4] com um personagem de costas a jogar um videogame, cuja imagem no ecrã sugere uma espécie de hipnose induzida pelo fenómeno UFO. Pelo meio temos Close encounter (road to the shelter), What the eyes see the mind believes ou ainda The landing (mother ship), entre outras. Nesta disposição, Alegre parece ter sentido a necessidade de simplificar e racionalizar a linguagem formal utilizada, de forma a que fosse capaz de veicular a ideia inicial do trabalho presente: para além da óbvia produção de um agrupamento visual "comunitário", como dissemos, precisou, em termos estéticos, de produzir um dispositivo múltiplo, mas, no entanto, equilibrado e harmonioso.
O uso da cor (em diferentes tonalidades) contribui para esse equilíbrio, quase nos dando uma expressão próxima do desenho (visível quando sobreposta com variações cromáticas) e desempenhando a função de distinguir as várias partes que constituem as imagens. Por outro lado, as superfícies que agrupam as figuras assumem as propriedades dos objectos representados, resultando em superfícies contínuas e também fragmentadas que assim divergem nos espaços que pautam a relação figura/fundo (Adcock: 1990).
A contenção da cor através da utilização de tons substancialmente quentes (no caso laranja/avermelhados) tem a função de "avigorar" as figuras e ao mesmo tempo preservar o carácter harmonioso das suas formas, facto que permite criar uma iluminação capaz de, simultaneamente, acentuar a modelação das formas e também tornar mais visível a linha das mesmas, como nos diz Anne Varichon (2006).
Como resultado destas estratégias, o projecto que aqui Luís Alegre nos apresenta é de carácter marcadamente ambíguo e, ocasionalmente, lúdico. Fazendo-nos ver extraterrestres como seres familiares – insectos, plantas, corpos, alvéolos –, a força da imaginação de Luís Alegre é surpreendente, conseguindo colocar-nos, assim, num estado de permanente suspensão.
Pedro Cabral Santo

Luís Alegre, vista da exposição 'All this happened, more or less', Quarto 22 - Colégio das Artes de Coimbra, 2015-16. Cortesia do artista e Colégio das Artes de Coimbra.

Luís Alegre, vista da exposição 'All this happened, more or less', Quarto 22 - Colégio das Artes de Coimbra, 2015-16. Cortesia do artista e Colégio das Artes de Coimbra.
Notas:
[1] Por exemplo, modelos geométricos capazes de simular um espaço simétrico, teorias já amplamente teorizadas por Euclides, Bolyai, entre muitos outros, e que iriam contribuir para aconstrução de modelos 3D, pela física, nomeadamente no que se refere ao desenvolvimento e à concepção de um universo em expansão (White:1957).
[2] Conjunto de pinturas em pequeno formato muito narrativas (próximas da banda desenhada). As pinturas da predella cumpriam uma função mais didáctica, contavam uma história ou simplesmente serviam de entretenimento.
[3] Na Representação consegue-se simular a naturalidade darecepção da luz que está subjacente à leis da distribuição física da mesma,seja através da aplicação rigorosa da perspectiva, das lentes das máquinas oude uma aplicação harmoniosa e intuitiva/racional, tendo em conta a distribuiçãoespacial da mesma, no caso está sempre o conhecimento preciso de como o "olho"percepciona a realidade, os seus limites e abrangências (Aumont: 1989).
[4] O conceito Arcade Games surgiu nos E.U.A. e remete para uma construção física em "jeito de arcada", lugar ideal para se jogarem videogames em semi-imersão, criando para isso uma espécie de mini gabinete para a cabeça do espectador, equipamentos usados em abundância durante as décadas de 70 (época áurea dos jogos vídeo) e 80 do século passado.
Bibliografia
ADCOCK, Graig - The Art of light and space. Los Angeles: University of California Press Berkeley, 1990
AUMONT, Jacques – L'oeil interminable. Paris: Séguier, 1989.
BONAMI, Francesco – Ilya Kabakov, Tales from the Dark Side. «Flashart internacional». Dir. GiancarloPoliti / Helena Kontova. N.177. Milan: Editorial Executive and Advertising Offices, 1994.
ELLENBERGER, Michel – L´Art de l´Ingénieur. «Artpress». Dir. Jean-Pierre de Kerraoul. N. 226,Juillet-Août. Paris: Art Press, 1997.
FOCILLON, Henri – A Vida das Formas. Lisboa: Edições 70, 1988
MERLEAU– PONTY, M. – O Olho e o Espírito. Lisboa: Editora Vega, 1992.
WHITE, J. – The Birth and Rebirth of pictorial Space. Londres: Faber and Faber, 1957.
VARICHON, Anne – Colors; what they mean and how to make them. New York: Abrams, 2006.