PERFORMANCE: A BAÍA DE GUANABARA

 

No documento vídeo da performance"Baía de Guanabara" (Porto, 2004) apresentado no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães, 2015), Albuquerque Mendes entra na Galeria Canvas de braço dado com uma stripper: ele vestido com calça e camisa de fato, ela só com roupa interior e uma camisola justa e transparente. Tal como no quadro de Manet, Le Déjeuner sur l'herbe (Salon des Refusés,1863), a nudez feminina exibe-se perante uma Natureza que é subvertida pelo comportamento social masculino. A nudez é apresentada no feminino, apesar de a ambivalência entre a celebridade e o escândalo, a fascinação e a ameaça ou a necessidade e a oferta não existirem sem a contraposição da masculinidade. A nudez dela atrai as atenções mas é ele quem controla a exibição da sua figura. Albuquerque encaminha a stripper para uma plataforma circular com um varão (pole) onde ela executará o que, sem qualquer palavra, é descaradamente anunciado: provocar o público enquanto

se despe executando uma pole dance.

 

Tal como acontece nas colagens (as fotografias de corpos que se prestam a serviços sexuais são recortadas e coladas nos cadernos de desenhos), Albuquerque traz para o espaço da galeria de arte o corpo de uma profissional que sem mais acessórios, assegura prazer visual. Todos os movimentos que a stripper fizer pressupõem a sua observação. Se, como anunciava Charles Baudelaire, a obra de arte, tal como o corpo, são objeto do prazer público, então, na galeria, ambos se apresentam a desempenhar ofícios

sincronizados e paralelos.

 

Depois de deixar a bailarina no varão, chega a vez do artista começar a desenhar na parede de fundo da galeria, até surgir uma paisagem a carvão. Os gestos performativos do desenho provocam igualmente expectativa, mas talvez uma que nunca se cumpra. O escadote onde Albuquerque se empoleira para chegar ao cimo da parede quebra a ilusão da obra e lembra a sua dimensão humana e construída. Pelo contrário, a nudez feminina foi sendo naturalizada desde a Antiguidade. Arte e vida competem. Enquanto o movimento da bailarina, apesar de vulgar e fugaz, despoleta prazer no espectador, a sensibilidade artística do desenho

não lhe garante um lugar definitivo na parede da galeria.

 

Acabado o desenho, quebra-se o silêncio com a música "Disseram que eu voltei americanizada", um samba escrito para Carmen Miranda em 1940 (Marco de Canaveses, 1909 – Los Angeles, 1955), repelindo as acusações de ter perdido a brasilianidade. Carmen Miranda encarna a figura da estrela que mantendo uma forte relação popular, consegue transformá-la no seu retrato. Carmen Miranda torna-se uma artista oficial, mas também uma mulher do mundo. Essa identidade e o seu reconhecimento, que envolveram a esteticização da imagem da baiana, não foram alcançados

sem uma crítica: a da americanização.

 

Albuquerque arregaça as calças, mostra as suas peúgas às riscas vermelhas e brancas e coloca um nariz vermelho de palhaço. Caracteriza-se. Desmonta o código social masculino e segurando uma mangueira a jorrar água, predispõe-se a destruir o desenho. Dominamos a cultura de que fazemos parte? Onde chega a perversão da Arte? Que fizemos da Baía de Guanabara, cuja natureza um dia foi descrita como sendo pintada pelo supremo pintor? Agora que Albuquerque destrói a pintura vestido de palhaço e dança coma mangueira ao som de Carmen Miranda, a stripper tira finalmente a roupa. Quem não viu o desenho já não o verá e a bailarina dá por acabado o seu espetáculo. Sem se voltar a vestir sai do seu palco

e senta-se junto do desenho, agora apagado.

Não há ilusão. O artista sai de cena com palmas, identificando-se

com o corpo marginal da figura nua.

 

Porque o olho humano só consegue captar uma imagem de cada vez (apesar de a câmara poder captar mais do que um movimento), mostram-se as duas imagens de câmaras que filmaram a performance "Baía de Guanabara" (Galeria Canvas, 2004) – a câmara que filma Albuquerque Mendes e a câmara que filma a stripper– em paredes opostas. Tal como na Baía de Guanabara, onde a paisagem natural e a construída se confrontam (natureza e crueldade), uma com vista para a outra, também aqui o espectador é livre de escolher entre a obra do artista e o espetáculo da stripper, que acontecem no mesmo espaço, mas é justo que se confronte com as suas opções. Se a "obra de arte prima" será sempre, como na definição de Honoré de Balzac, a desconhecida, também o eu com que nos confrontamosé o desconhecido. Desta forma se confronta o sensível

com o inteligível e o estado daquele que não é senhor de si.

 

O vídeo desta performance apresenta-se como uma chave de leitura para a exposição: porque lembra a importância da performance na obra de Albuquerque Mendes, a relevância do processo em detrimento da obra de arte acabada que a sua formação artística coerentemente revela desde os anos setenta, mas também porque, sem nos deixar um objeto emoldurado para olhar, nos torna cúmplices de uma experiência coletiva.

 

O objetivo desta exposição é o de trazer o espectador até ao desenho, revelando-lhe a existência de um mundo que está por abrir: o dos diários emocionais da atividade artística. Não estamos perante obras de arte acabadas mas de material em bruto, onde o artista vai testando o reconhecimento do seu processo de trabalho. Esta é uma exposição-manifesto, uma declaração de práticas que, sem chegarem ao museu, antes cruzam tempos históricos e geografias, referências eruditas e ordinárias, vivências e inquietudes, memórias visuais e culturais, a sorte e o azar. Desafiando a margem do erro, Albuquerque Mendes usará ainda as paredes da galeria do CAAA para realizar

um desenho-performance: o desenho em ato.

 

Esta é uma exposição que não existe sem cumplicidade.

 

Paula Pinto

curadora da exposição

 

PERFORMANCE: A BAÍA DE GUANABARA

 

No documento vídeo da performance"Baía de Guanabara" (Porto, 2004) apresentado no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães, 2015), Albuquerque Mendes entra na Galeria Canvas de braço dado com uma stripper: ele vestido com calça e camisa de fato, ela só com roupa interior e uma camisola justa e transparente. Tal como no quadro de Manet, Le Déjeuner sur l'herbe (Salon des Refusés,1863), a nudez feminina exibe-se perante uma Natureza que é subvertida pelo comportamento social masculino. A nudez é apresentada no feminino, apesar de a ambivalência entre a celebridade e o escândalo, a fascinação e a ameaça ou a necessidade e a oferta não existirem sem a contraposição da masculinidade. A nudez dela atrai as atenções mas é ele quem controla a exibição da sua figura. Albuquerque encaminha a stripper para uma plataforma circular com um varão (pole) onde ela executará o que, sem qualquer palavra, é descaradamente anunciado: provocar o público enquanto

se despe executando uma pole dance.

 

Tal como acontece nas colagens (as fotografias de corpos que se prestam a serviços sexuais são recortadas e coladas nos cadernos de desenhos), Albuquerque traz para o espaço da galeria de arte o corpo de uma profissional que sem mais acessórios, assegura prazer visual. Todos os movimentos que a stripper fizer pressupõem a sua observação. Se, como anunciava Charles Baudelaire, a obra de arte, tal como o corpo, são objeto do prazer público, então, na galeria, ambos se apresentam a desempenhar ofícios

sincronizados e paralelos.

 

Depois de deixar a bailarina no varão, chega a vez do artista começar a desenhar na parede de fundo da galeria, até surgir uma paisagem a carvão. Os gestos performativos do desenho provocam igualmente expectativa, mas talvez uma que nunca se cumpra. O escadote onde Albuquerque se empoleira para chegar ao cimo da parede quebra a ilusão da obra e lembra a sua dimensão humana e construída. Pelo contrário, a nudez feminina foi sendo naturalizada desde a Antiguidade. Arte e vida competem. Enquanto o movimento da bailarina, apesar de vulgar e fugaz, despoleta prazer no espectador, a sensibilidade artística do desenho

não lhe garante um lugar definitivo na parede da galeria.

 

Acabado o desenho, quebra-se o silêncio com a música "Disseram que eu voltei americanizada", um samba escrito para Carmen Miranda em 1940 (Marco de Canaveses, 1909 – Los Angeles, 1955), repelindo as acusações de ter perdido a brasilianidade. Carmen Miranda encarna a figura da estrela que mantendo uma forte relação popular, consegue transformá-la no seu retrato. Carmen Miranda torna-se uma artista oficial, mas também uma mulher do mundo. Essa identidade e o seu reconhecimento, que envolveram a esteticização da imagem da baiana, não foram alcançados

sem uma crítica: a da americanização.

 

Albuquerque arregaça as calças, mostra as suas peúgas às riscas vermelhas e brancas e coloca um nariz vermelho de palhaço. Caracteriza-se. Desmonta o código social masculino e segurando uma mangueira a jorrar água, predispõe-se a destruir o desenho. Dominamos a cultura de que fazemos parte? Onde chega a perversão da Arte? Que fizemos da Baía de Guanabara, cuja natureza um dia foi descrita como sendo pintada pelo supremo pintor? Agora que Albuquerque destrói a pintura vestido de palhaço e dança coma mangueira ao som de Carmen Miranda, a stripper tira finalmente a roupa. Quem não viu o desenho já não o verá e a bailarina dá por acabado o seu espetáculo. Sem se voltar a vestir sai do seu palco

e senta-se junto do desenho, agora apagado.

Não há ilusão. O artista sai de cena com palmas, identificando-se

com o corpo marginal da figura nua.

 

Porque o olho humano só consegue captar uma imagem de cada vez (apesar de a câmara poder captar mais do que um movimento), mostram-se as duas imagens de câmaras que filmaram a performance "Baía de Guanabara" (Galeria Canvas, 2004) – a câmara que filma Albuquerque Mendes e a câmara que filma a stripper– em paredes opostas. Tal como na Baía de Guanabara, onde a paisagem natural e a construída se confrontam (natureza e crueldade), uma com vista para a outra, também aqui o espectador é livre de escolher entre a obra do artista e o espetáculo da stripper, que acontecem no mesmo espaço, mas é justo que se confronte com as suas opções. Se a "obra de arte prima" será sempre, como na definição de Honoré de Balzac, a desconhecida, também o eu com que nos confrontamosé o desconhecido. Desta forma se confronta o sensível

com o inteligível e o estado daquele que não é senhor de si.

 

O vídeo desta performance apresenta-se como uma chave de leitura para a exposição: porque lembra a importância da performance na obra de Albuquerque Mendes, a relevância do processo em detrimento da obra de arte acabada que a sua formação artística coerentemente revela desde os anos setenta, mas também porque, sem nos deixar um objeto emoldurado para olhar, nos torna cúmplices de uma experiência coletiva.

 

O objetivo desta exposição é o de trazer o espectador até ao desenho, revelando-lhe a existência de um mundo que está por abrir: o dos diários emocionais da atividade artística. Não estamos perante obras de arte acabadas mas de material em bruto, onde o artista vai testando o reconhecimento do seu processo de trabalho. Esta é uma exposição-manifesto, uma declaração de práticas que, sem chegarem ao museu, antes cruzam tempos históricos e geografias, referências eruditas e ordinárias, vivências e inquietudes, memórias visuais e culturais, a sorte e o azar. Desafiando a margem do erro, Albuquerque Mendes usará ainda as paredes da galeria do CAAA para realizar

um desenho-performance: o desenho em ato.

 

Esta é uma exposição que não existe sem cumplicidade.

 

Paula Pinto

curadora da exposição