... sou resistente às tentativas de catalogação do agir e

pensar humano de forma generalizada e a peça "1989"

é também sobre isso...

      1989 foi um ano que marcou o mundo numa perspectiva ideológica, cultural, social e psicológica (psicologia de massas). Vivemos hoje numa sociedade globalizada, pós-colonial, pós-moderna, onde o pensamento e a arte precisam de encontrar o seu lugar.

 

    Qual a importância e a relação do documental, do ficcional e do arquivo neste cenário? E qual o seu potencial no campo das artes visuais?

 

Diz-se que a partir dos anos 80 as imagens difundidas não serviam apenas um propósito de representação mas eram, elas mesmas, catalisadoras de ação. Hoje em dia essa difusão e ação/reação é ainda mais rápida com o advento da fotografia e vídeo digital, da internet e das redes sociais. As imagens podem ser armas: para espalhar o medo, para massificar o pensamento, para construir alheamento, etc. Acabo de pensar num exemplo: o dos vídeos da execução de reféns difundidos com o propósito de espalhar o terror, por grupos terroristas: são documentais e ficcionais, ou melhor, são encenados e gravados - passam rapidamente a fazer parte de um arquivo de "terror" e são "prova" de culpabilidade dos seus executantes e justificação para um ataque/contra-ataque.

 

Relativamente às artes visuais, penso que tem crescido o espaço para artistas que trabalham o formato "filme", com durações mais longas, um formato mais exigente que o loop rápido que pode ser visto entrando na sala em qualquer momento da narrativa. Em Portugal esse espaço ainda é escasso, sinto muita dificuldade em conseguir apresentar, de forma condigna os meus "filmes" em espaços dedicados às artes visuais. Temos em Vila do Conde uma galeria que aprofunda a relação da arte com o cinema, a Solar-Galeria de Arte Cinemática, que faz um trabalho exemplar com artistas/realizadores sobretudo internacionais, onde fiz uma exposição individual com 9 instalações vídeo, em 2014, intitulada Foreign Grey, mas que pouca gente viu por estar fora dos centros urbanos de Lisboa e Porto. O meu filme Seems So Long Ago, Nancy, para além de inúmeras projeções em festivais de cinema, foi exibido em formato exposição numa galeria em Londres, em 2012, durante cerca de um mês e numa outra galeria em Amesterdão durante cerca de um mês e meio, em 2014, no contexto de exposições individuais em que esta era a peça central. Na minha peça "1989" o filme está construído em loop mas com uma linha narrativa que tem princípio, meio e fim, dividida em três capítulos que devem ser vistos por essa ordem pois têm uma progressão e cadência próprias. Ao entrar na sala, e no momento em que se apercebe em que capítulo está, o espectador pode escolher abandonar a sala e voltar a entrar quando o loop retomar o primeiro capítulo, ou ver até ao fim e recomeçar de novo.

 

Repegando na tua pergunta, há quem diga que mais que o pós-colonialismo temos que viver uma "Descolonialidade" e mais que pós-modernismo estamos a viver uma transmodernidade. Mas sou resistente às tentativas de catalogação do agir e pensar humano de forma generalizada e a peça 1989 é também sobre isso. Apesar desta peça ter uma âncora teórica (uma teia textual que construí a partir da mistura de vários pensamentos que me interessam, entre eles o próprio pensamento sobre "as formas documentais"), ela fá-lo de forma crítica e oferecendo alguma resistência através do subtexto que a imagem oferece. Para mim, texto e imagem devem ser lidos juntos e isoladamente, são ambos matéria e produtores de significado, questionamento e conhecimento, têm inúmeras camadas de leitura. Em relação ao arquivo, não me interessa tanto o arquivo como um final em si, é fácil sermos atraídos pela estética nostálgica, sentirmos atração ou repulsa por uma imagem datada, é fácil julgar ou ser empático com o passado.

 

1/9

Entre-Dois, 2014. Projection and Plasma screenA History of the Wind, 2014. Rear projection on floating screen part of Foreign Grey. Solar - Galeria de Arte Cinemática; Foreign Grey; Foreign Grey / Five Stars, 2014. 2 Channel projections on footing screens. © Tatiana Macedo. Cortesia da artista.

     O documental é um meio para (r)estabelecer uma relação com a realidade? Ou será catalisador de uma realidade diferente em vez de ser a sua representação?

 

Penso que será as duas coisas, sendo que uma relação com a realidade não é necessariamente uma representação mas um "estar presente" assumindo determinada postura e ponto de vista que pode tomar várias formas e tipos de "relação". Voltando aos exemplos anteriores: o filme Seems So Long Ago, Nancy não teria sido possível se eu não me tivesse relacionado com o espaço das galerias (da Tate) e sobretudo com as pessoas que ali trabalham, se não tivesse criado uma relação com elas, se não as tivesse conhecido, se não tivéssemos partilhado aquelas horas de trabalho juntos (o meu trabalho e o deles), se não estivéssemos disponíveis uns para os outros. Isto é extremamente difícil e consome muito tempo. Depois vem o trabalho solitário da edição/montagem mas que pode ser mais ou menos relacional, dependendo se se trata de um trabalho de colaboração com outros artistas e técnicos. No caso da exposição  Foreign Grey trata-se de outro tipo de imersão e de relação, e também de materialização e criação de um outro tipo de memória. São sempre outras representações, são construções narrativas de diferentes espécies poéticas, ensaísticas, plásticas.

 

Esta questão também se relaciona com a primeira pergunta desta entrevista. No trabalho "1989" aquilo que se pode chamar de ficção proporcionou um extraordinário encontro com uma realidade fortíssima ao aperceber-me que a protagonista da situação que encenei e filmei na cabine de tradução tinha, ela mesma, uma história de vida que espelhava as ideias ali construídas no texto que lia e na sua imagem. Lara Duarte é não só intérprete/tradutora de conferências há mais de 10 anos, professora e doutorada em literatura norte-americana, nascida em Moçambique e criada/educada na antiga Rodésia e Suazilândia numa escola conhecida pela sua luta anti-apartheid até aos 17 anos de idade.

 

     É importante ter em conta que a era da globalização neoliberal, a partir de 1989, gerou os seus próprios modelos de representação, que apesar das diferenças formais atestam um desejo de "tocar o real".

 

    Questiono, citando Jacques Rancière: "Escrever a história e escrever histórias pertencem a um mesmo regime de verdade."?

 

Talvez pertençam a um mesmo regime de produção de um ponto de vista. Aquele que escreve sobre alguém ou algo, embora possa tentar ser o mais imparcial possível, escreverá sempre a partir de um determinado ponto de vista. "A Grande História Universal" devia ser, no fundo, "as grandes e as pequenas histórias do local e do global" (ou algo semelhante). Mas quero fazer a ressalva de que não sou historiadora, embora tenha um Mestrado em Antropologia Visual, o meu interesse na teoria é o de informar-me, como indivíduo, como cidadã, e dessa forma enriquecer a minha relação crítica com o mundo, de forma a cruzar várias disciplinas, com o intuito de ajudar-me a pensar e a estruturar as minhas ideias. As decisões do plano formal e técnico das linguagens que uso (imagem, som, etc) são igualmente importantes e sobretudo experimentais!

 

     Que consequências advêm da criação de cenários que dependem de realidades sociais existentes? E que tipo de realidade (social, política ou outra) pode ser proposta por um artista que trabalhe nesta esfera do social?

 

Em primeiro lugar, acredito que existe um lugar comum que gostaria de desmistificar que é o da ideia de que há uns artistas que trabalham na 'esfera do social e do político' e outros que não. Eu acredito que não é possível trabalhar fora do social e do político em nenhuma área, (posso estar enganada). Quando um artista se posiciona deliberadamente "fora do político/social" está também a posicionar-se política e socialmente, a questão é: que política está ele a escolher? Política do escapismo? Do alheamento? Da esterilidade, da limpeza? Do não-comprometimento? Ou uma política de género, etc... Tenho reparado que a um artista que trabalhe assumidamente dentro do sócio/político, geopolítico, etc, não são tão recorrentes as perguntas sobre as suas escolhas plásticas e formais e são mais recorrentes os diálogos centrados nos temas. Tenho pena que assim seja, parece haver uma espécie de cegueira sensível quando o cérebro é estimulado destas duas formas. A minha obra não é panfletária. Eu trabalho com matéria: imagem, texto, som, gesto, duração, coreografia... Sensorial e conceptualmente e, muitas vezes, como dizes, numa imersão minha em determinado contexto. Essas imagens, esses textos, esses gestos são informados por pensamentos e questões sobre o mundo, não são herméticos. A "realidade proposta" pode ser uma de pensamento-corpo: estímulo sensorial e conceptual - poético. Penso que a minha obra tem um lado até bastante sensual.

 

     O documental é um meio para (r)estabelecer uma relação com a realidade? Ou será catalisador de uma realidade diferente em vez de ser a sua representação?

 

Penso que será as duas coisas, sendo que uma relação com a realidade não é necessariamente uma representação mas um "estar presente" assumindo determinada postura e ponto de vista que pode tomar várias formas e tipos de "relação". Voltando aos exemplos anteriores: o filme Seems So Long Ago, Nancy não teria sido possível se eu não me tivesse relacionado com o espaço das galerias (da Tate) e sobretudo com as pessoas que ali trabalham, se não tivesse criado uma relação com elas, se não as tivesse conhecido, se não tivéssemos partilhado aquelas horas de trabalho juntos (o meu trabalho e o deles), se não estivéssemos disponíveis uns para os outros. Isto é extremamente difícil e consome muito tempo. Depois vem o trabalho solitário da edição/montagem mas que pode ser mais ou menos relacional, dependendo se se trata de um trabalho de colaboração com outros artistas e técnicos. No caso da exposição  Foreign Grey trata-se de outro tipo de imersão e de relação, e também de materialização e criação de um outro tipo de memória. São sempre outras representações, são construções narrativas de diferentes espécies poéticas, ensaísticas, plásticas.

 

Esta questão também se relaciona com a primeira pergunta desta entrevista. No trabalho "1989" aquilo que se pode chamar de ficção proporcionou um extraordinário encontro com uma realidade fortíssima ao aperceber-me que a protagonista da situação que encenei e filmei na cabine de tradução tinha, ela mesma, uma história de vida que espelhava as ideias ali construídas no texto que lia e na sua imagem. Lara Duarte é não só intérprete/tradutora de conferências há mais de 10 anos, professora e doutorada em literatura norte-americana, nascida em Moçambique e criada/educada na antiga Rodésia e Suazilândia numa escola conhecida pela sua luta anti-apartheid até aos 17 anos de idade.

 

     É importante ter em conta que a era da globalização neoliberal, a partir de 1989, gerou os seus próprios modelos de representação, que apesar das diferenças formais atestam um desejo de "tocar o real".

 

    Questiono, citando Jacques Rancière: "Escrever a história e escrever histórias pertencem a um mesmo regime de verdade."?

 

Talvez pertençam a um mesmo regime de produção de um ponto de vista. Aquele que escreve sobre alguém ou algo, embora possa tentar ser o mais imparcial possível, escreverá sempre a partir de um determinado ponto de vista. "A Grande História Universal" devia ser, no fundo, "as grandes e as pequenas histórias do local e do global" (ou algo semelhante). Mas quero fazer a ressalva de que não sou historiadora, embora tenha um Mestrado em Antropologia Visual, o meu interesse na teoria é o de informar-me, como indivíduo, como cidadã, e dessa forma enriquecer a minha relação crítica com o mundo, de forma a cruzar várias disciplinas, com o intuito de ajudar-me a pensar e a estruturar as minhas ideias. As decisões do plano formal e técnico das linguagens que uso (imagem, som, etc) são igualmente importantes e sobretudo experimentais!

 

     Que consequências advêm da criação de cenários que dependem de realidades sociais existentes? E que tipo de realidade (social, política ou outra) pode ser proposta por um artista que trabalhe nesta esfera do social?

 

Em primeiro lugar, acredito que existe um lugar comum que gostaria de desmistificar que é o da ideia de que há uns artistas que trabalham na 'esfera do social e do político' e outros que não. Eu acredito que não é possível trabalhar fora do social e do político em nenhuma área, (posso estar enganada). Quando um artista se posiciona deliberadamente "fora do político/social" está também a posicionar-se política e socialmente, a questão é: que política está ele a escolher? Política do escapismo? Do alheamento? Da esterilidade, da limpeza? Do não-comprometimento? Ou uma política de género, etc... Tenho reparado que a um artista que trabalhe assumidamente dentro do sócio/político, geopolítico, etc, não são tão recorrentes as perguntas sobre as suas escolhas plásticas e formais e são mais recorrentes os diálogos centrados nos temas. Tenho pena que assim seja, parece haver uma espécie de cegueira sensível quando o cérebro é estimulado destas duas formas. A minha obra não é panfletária. Eu trabalho com matéria: imagem, texto, som, gesto, duração, coreografia... Sensorial e conceptualmente e, muitas vezes, como dizes, numa imersão minha em determinado contexto. Essas imagens, esses textos, esses gestos são informados por pensamentos e questões sobre o mundo, não são herméticos. A "realidade proposta" pode ser uma de pensamento-corpo: estímulo sensorial e conceptual - poético. Penso que a minha obra tem um lado até bastante sensual.