"... quando pensamos, pensamos sempre a partir de um lugar,
ou seja, existe uma geopolítica inerente ao pensamento do indivíduo: cultural, experiencial, sensível ..."

Afirmaste, recentemente numa entrevista: "interessa-me posicionar-me nas fronteiras, ter um pensamento de fronteira". Podes explicar?
Cruzei-me com o termo Border Thinking numa conferência de Walter Mignolo. Esta ideia está associada à percepção de que, quando pensamos, pensamos sempre a partir de um lugar, ou seja, existe uma geopolítica inerente ao pensamentodo indivíduo: cultural, experiencial, sensível, etc. Por vezes cai-se no erro de generalizar conceitos e narrativas e de os aplicar de forma "global" como se fossem comuns a todos os indivíduos e não somente àqueles que produziram determinado pensamento, teoria, movimento. Quando nos posicionamos na fronteira não estamos "dentro" nem "fora", estamos "entre". O pensamento ocidental constrói-se a partir de binómios que não são simétricos, embora pensemos que sim, como na cultura oriental do yin e do yang cuja harmonia está na sua igual proporção. A produção de distinção assenta na construção da diferença e talvez seja por isso que o meu corpo de trabalho está entre a fotografia, o cinema e a instalação, entre linguagens, entre disciplinas, assim como o meu pensamento. A fronteira é um lugar.

Tatiana Macedo, 1989, 2015. Instalação vídeo e som com projeção de 3 canais, vídeos (HD), 16:9, cor e preto e branco, som espacializado, 28'. Video still. Fotografias: José Paulo Ruas, Luísa Oliveira e Tatiana Macedo. DGPC/DDCI/ADF. Cortesia da artista.
Em 1989 existe uma desconstrução do olhar, da linguagem e das estruturas de pensamento ocidentais sobre o mundo e sobre o outro? Podes comentar e desenvolver?
Penso que a resposta anterior responde a isto. O que fazer com o fluxo migratório de pessoas que tentam chegar à Europa ou aos EUA e ficam entaladas nas fronteiras, nos oceanos, nos centros de detenção de imigrantes e de refugiados? Serão estes não-lugares ou lugares? O mesmo acontece com o pensamento.
Podemos pensar no teu trabalho como o de etnógrafo? Um trabalho que explora e faz uso deste método, que utiliza estratégias de investigação e recolha, de documentação, que assume características próximas à antropologia, para a produção do objecto artístico (como se refere Hal Foster no seu "O artista enquanto etnógrafo") ?
Há muito que alguns artistas se apropriaram do método etnográfico como método de pesquisa, mas não posso por isso considerar-me etnógrafa e não uso esse método com o fim da documentação. Não tenho objectivos concretos de produção de conhecimento científico mas sim um outro tipo de pensamento que recorre a um outro tipo de linguagem.
Choco muitas vezes com a disciplina antropológica, por isso mesmo, por considerar que a produção e construção de imagens têm uma linguagem própria e que podem produzir conhecimento, por si mesmas, e através dessas linguagens que têm que ver com a sua expressão. O filme Seems So Long Ago, Nancy não tem texto e tão pouco se resume a uma observação etnográfica de dado contexto/realidade. Contudo foi uma surpresa para mim este filme ter ganho um prémio em Washington DC pela American Anthropological Association – Society for the Anthropology of Work, por abordar uma realidade laboral e ter uma noção e uma aproximação a uma suposta justiça social e do mundo do trabalho (nas palavras do júri). Por outro lado, este filme teve uma difícil aceitação em alguns festivais de cinema ditos "vérité" por ser demasiado experimental. São os ditos territórios de fronteira, de areias movediças... ou de arame farpado...
É importante falar de processos e se, por um lado é muitíssimo importante a questão da presença, as relações e o momento de captura das imagens, essa relação com o que se está a filmar e essa tomada de posição e de ponto de vista, por outro lado, a criação assenta também e de forma igualmente importante no momento posterior de edição e montagem. Não trabalho com guiões fechados em que prevejo onde começar e onde acabar de filmar, bem como não desenho uma linha narrativa para a montagem. A montagem é que define o caminho e a narrativa, as associações que faço com imagem e texto, o que se leva de trás de uma imagem para outra, de um som para outro, estas decisões são tomadas na altura da montagem, de forma sensível, que tem que ver com uma condução sensível e conceptual da matéria, musical, rítmica, com intervalos, avanços, recuos, um grande mosaico que se compõe na montagem.
Trata-se de composição. Tanto em 1989 (que montei com a ajuda técnica preciosa do Francisco Costa) quanto em Seems So Long Ago, Nancy, (que montei com o Sandro Aguilar), existe uma elaborada composição de imagem feita na montagem e no som. Em 1989 colaborei com o compositor Jonas Runa e começámos por construir texturas sonoras espacializadas chegando a compor uma faixa original com vários instrumentos que foram tocados pelo Jonas num único take improvisado, a olhar para a imagem do filme já montado, à semelhança do processo de trabalho do Miles Davies para a banda sonora do filme L'ascenseur pour l'échafaud do Louis Malle. No meu corpo de trabalho estes são processos experimentais, desde o momento de filmar até à última fase da montagem.
O trabalho de um artista só se torna verdadeiramente interessante quando este se depara com os limites da sua obra ou da sua prática. Neste sentido qual a importância de um prémio como o Sonae Media Art que acabas de receber?
A importância deste prémio é exterior a mim. Tem que ver com o impacto que produza a um nível que não depende exclusivamente de mim mas da exposição e visibilidade que um prémio com este nível suscita (não sei se são estes os limites a que te referes). Tem sido positivo que o meu trabalho tenha chegado a mais pessoas e que tenha tido a oportunidade de falar sobre ele e de expor ideias e suscitar diálogos como o desta entrevista. Na minha prática, deparo-me com limites, de forma constante, e esses limites são visíveis, não os escondo nas imagens que produzo, mas também podem ser invisíveis, no não controle da sua recepção. Tem que ver com o processo, com o contexto, com as questões abordadas anteriormente da sua "transmedialidade" e transdisciplinaridade. Não sei se respondi à pergunta...
> 31 janeiro, 2016