Adelina Lopes, Variações para um copo, 2004. Vista da Exposição "As The Earth Spins Beneath The Stars", Fundação Leal Rios,  2015 © Adelina Lopes e Fundação Leal Rios. Fotografia: João Biscainho.

 

Em 2012, numa entrevista com Nuno Crespo, ao jornal Público, refere que mais do que reunir obras isoladas, interessa-lhe construir uma visão em profundidade dos autores para a criação de uma colecção onde as obras dos artistas contemporâneos portugueses são contextualizadas e confrontadas com alguns artistas internacionais. Como é que a FLR opera esta contextualização e confronto na forma como a apresenta a sua colecção?

 

 

A colecção é mais rica em obras do que em artistas, o que já responde a parte da questão. Definitivamente, queremos acompanhar o percurso de determinados artistas.

 

Por vezes, é necessária a aquisição de determinada obra, sem recorrer nem ao histórico do artista, nem ao seu valor de mercado ou da obra, de forma a poder unir ou mesmo contextualizar um determinado grupo de peças de um ou mais artistas já representados na colecção. Um processo que, como é claro, também acontece no sentido inverso!

 

“queremos acompanhar o percurso de determinados artistas, reunindo um conjunto significativo e coerente das suas obras, podendo assim, acompanhar também o seu percurso autoral.”

 

Quero também salientar que a “arte” de coleccionar não é matemática, não se trata de uma ciência. Na maior parte das vezes não existem razões lógicas operantes. A intuição foi, é e será sempre, na minha opinião, um factor decisivo para a aquisição de uma determinada obra ou artista. Uma prática mais analítica ou mesmo da contextualização das obras, por acordo ou por oposição, apareceu mais tarde e quando já existiam trabalhos em número suficiente para se estabelecerem as ligações, que viriam depois a formar a linha ou as linhas condutoras actuais da colecção e, por consequência, os seus contextos. Trata-se de uma necessidade imperativa que aconteceu mais cedo do que eu próprio, enquanto orientador da colecção, previ. Quando tomámos consciência de que estávamos a coleccionar, tornou-se urgente começar a reflectir sobre o que estava adquirido e o que viria a seguir.

 

No início, sensivelmente entre 2002 e 2007, a nossa colecção só agrupava obras de artistas portugueses. A necessidade de contextualizá-los levou-nos, então, a uma fase de procura criteriosa de obras de artistas internacionais. Foi o desejo de internacionalizar a colecção que originou a necessidade de contextualizar as obras dos artistas portugueses através da aquisição de trabalhos de artistas internacionais.

 

Curiosamente, são as obras internacionais que estão a ser contextualizadas com as dos portugueses. Trata-se verdadeiramente do desenho de um sistema e, a título de exemplo, relembro a nossa primeira exposição colectiva “As the Earth Spins Beneath The Stars” (2015), que constituiu a primeira abordagem conceptual à colecção, que relacionou obras de artistas internacionais, como Jonathan Monk, Anthony McCall e Max Frey, com o trabalho “Variações para Um Copo” (2004) de Adelina Lopes.

 

No que respeita ao foco num determinado autor, interessa-me e tento concentrar-me nesse foco e na obra que daí resulta. Excluindo os casos em que existe uma encomenda de um trabalho, que poderá dirigir o artista num determinado sentido, entendo a obra de arte como o resultado de uma exteriorização pessoal do artista.

Relativamente a certos autores faz todo o sentido reunir um núcleo de obras que reflitam a sua visão, interpretação e exteriorização de um determinado contexto ou período da sua vida. A leitura da obra e do momento do artista, não são mais do que apreciações que podem ser mais fugazes ou mais lentas no tempo, mas quando esses interesses, em torno do artista, se podem contextualizar com outras obras, estabelecem-se, então, as tais pontes entre obras e diferentes artistas. Trata-se de um trabalho de bastidores que exige tempo, pesquisa, interesse e motivação.  

 

Qual a dimensão actual da colecção e com que regularidade adquirem peças?

 

A dimensão da colecção não é importante. O que me preocupa enquanto coleccionador e curador da colecção é, para além da sua dimensão, se vou conseguir criar um discurso baseado num conjunto de obras que podem ou não interligar-se, deixando janelas abertas para futuras interpretações, contextos e possibilidades curatoriais.

 

Como referi, a colecção é mais rica em obras do que em artistas e não existe qualquer regularidade de aquisição. Tem que ver com a obra, em si; a preocupação principal não é a regularidade com que se adquire mas a qualidade da aquisição.

 

Quer destacar a aquisição de uma obra que o tenha motivado particularmente? Seja por se tratar de um trabalho ou de um criador que muito admira, seja por ter sido especialmente difícil trazê-lo para a colecção.

 

Destaco a reunião de obras que definem quase todos os momentos importantes do percurso de Helena Almeida e o facto da FLR ter participado na aquisição de uma obra desta artista para a TATE em Londres.

 

Como é que a arte e o design convivem na colecção FLR?

 

A colecção que está institucionalizada é a coleção de arte contemporânea. Foi para a proteger e institucionalizar que se constituiu e fundou a Fundação Leal Rios, apesar de considerar nos seus estatutos o design. Contudo, não podemos considerar uma colecção o grupo de peças reunidas. Tanto eu como o meu irmão Manuel, adquirimos há muito tempo peças de design de autores como Charles Eames, Michele De Lucchi, Paolo Rizzato, Osvaldo Borsani, Jens Nielsen, Geoffrey Harcourt, Eero Saarinen, Álvaro Siza Vieira, Carvalho Araújo, Itay Ohaly, Miguel Vieira Baptista, Jo Nagasaka e Marc Sadler. Poderemos considerar o design como um plano para o futuro, terá, no entanto, de ser analisado e avaliado financeiramente.

 

No entanto, interrogo-me se o design deve integrar ou não o programa da FLR. Numa primeira análise, faz mais sentido cruzar os dois universos a partir das linhas orientadoras da colecção de arte contemporânea. Trata-se de dois universos diferentes (arte e design), quer pela dimensão que cada um dos grupos de obras ocupa na colecção, quer pelas próprias funções que nela assumem. De momento, as duas disciplinas não se cruzam, nem no mesmo espaço, nem no plano de programação da FLR. Aparentemente, os contextos são diferentes, mas existem pontos em que estas disciplinas se podem e até, possivelmente, se devem tocar, tendo em conta o meu conhecimento e imaginário, "local" onde elas convivem mentalmente, mas não espacialmente.

 

Entre outras, destacam-se do lado direito da imagem, as peças, Sente-me,1979 e Para um enriquecimento interior,1976 de Helena Almeida, apresentadas na exposição “Cimitière D’Ixelles”, no Art In General, NYC, 2013.Vista da Exposição “Helena Almeida -Transubstanciação”, Fundação Leal Rios, 2013 © Helena Almeida e Fundação Leal Rios. Fotografia: João Biscainho

 

Entre outras, destacam-se do lado direito da imagem, as peças, Sente-me,1979 e Para um enriquecimento interior,1976 de Helena Almeida, apresentadas na exposição “Cimitière D’Ixelles”, no Art In General, NYC, 2013.Vista da Exposição “Helena Almeida -Transubstanciação”, Fundação Leal Rios, 2013 © Helena Almeida e Fundação Leal Rios. Fotografia: João Biscainho