Acredita que o design e a arte são disciplinas indissociáveis no contexto da criação contemporânea? Podemos considerar a FLR precursora no que respeita à visão, mesmo que ainda não se expresse na sua programação, de uma colecção transdisciplinar?
Se nos referimos à transdisciplinaridade entre o design e a arte, a colecção ainda não é transdisciplinar, tal como referi.
“O design ainda não faz parte da colecção, mas sim do meu quotidiano. Ambas as disciplinas cruzam-se nos meus pensamentos e até quando fazemos a aquisição de uma determinada obra de arte.”
Sempre me interessei por arte. Tive formação em arte, fiz o curso de desenho do AR.CO. Escolhi viver o mundo pela arte. Portanto, a “Arte!” é uma disciplina - reflectindo nela de um modo mais global, - que sempre me interessou e a que me dedico. Não tenho uma acção profissional como artista, porque assim o decidi. Sou designer por opção, por formação e, como profissional, sempre aliei a “linguagem” da arte aos meus programas projectuais de design - dizem, que de forma inconsciente no que se refere ao acto criativo. É certo que, em determinada altura, ambas as disciplinas cruzam-se nos meus projectos, mas sem se tocarem.
No meu gabinete de design trabalho com os artistas numa fase mais avançada do projecto, envolvendo-os de tal forma que a comunicação e aceitação dos projectos são plenas, deixando que o trabalho do artista seja fruído e remetendo o design (que também pode ser fruído) para a utilização, para “usar”. Claro que não estou a falar no design pragmático, respeitador de uma ou mais funções, refiro-me a um aspecto mais ensaísta, de edição.
Regressando à coleção e à questão que me coloca, a transdisciplinaridade não é palpável, não deve ainda ser alvo de observação. É cedo, se bem que me colocam muito esta questão. A constituição da colecção está sob a minha responsabilidade e orientação, reflectindo o modo de ver e interpretar parte do mundo que vivo e vivi “através dos outros” - os artistas, e através de mim, enquanto designer e como “aglutinador” de algum conhecimento artístico e das obras que constituem a colecção. No entanto, não me preocupo, nem me debruço, exclusivamente, na construção de uma colecção baseada na visão dos autores que operam, unicamente, nos contextos onde aparentemente me poderia sentir mais confortável.
A missão da FLR refere querer “contribuir para um melhor entendimento e conhecimento da arte e design nacionais e internacionais”, que balanço faz destes quatro anos de actividade e de programação pública?
O balanço é muito positivo. O facto de uma colecção privada não se encontrar armazenada algures, estar disponível e poder ser partilhada com a comunidade, além do desfrute do próprio coleccionador, representa já um saldo positivo para todos. Claro que tenho um enorme orgulho no facto da FLR ter no seu curriculum óptimas exposições, entre as quais pessoalmente destaco “Nada é Imutável” (2014/15) de Rui Sanches e “Transubstanciação” (2013) de Helena Almeida.
“Não existe, no nosso país, um museu de arte contemporânea com uma colecção permanente. O que faz com que a FLR seja muito procurada por estudantes. O que nos dá muito prazer, porque visitam-nos com vontade de descobrir, entender e contextualizar a obra do artista na história da arte.”
Sabemos também que em Portugal é difícil encontrar núcleos de obras que reflictam o percurso histórico dos artistas e que permitam entender a sua obra, como no caso de Helena Almeida, ou um período específico - no caso de Rui Sanches. Não existe, no nosso país, um museu de arte contemporânea com uma colecção permanente. O que faz com que a FLR seja muito procurada por estudantes. O que nos dá muito prazer, porque visitam-nos com vontade de descobrir, entender e contextualizar a obra do artista na história da arte.
O mesmo aconteceu com Lisa Tan que em visita à FLR descobriu o percurso de trabalho de Helena Almeida e solicitou obras da artista para integrar a exposição “Cimitière D’Ixelles” no Art in General, em Nova Iorque. Já tivemos surpresas muito agradáveis resultado de convites que lançamos a curadores ou a escritores internacionais para escreverem textos para os nossos “Cadernos de Exposição”. Ficam surpreendidos com a qualidade das obras que encontram na colecção e com a descoberta de trabalhos e artistas que lhes propiciamos.
Em 2015, comissariou uma exposição no âmbito da Loop Barcelona e participou numa apresentação promovida pela feira Vienna Contemporary. A internacionalização é um objectivo constante na actuação da FLR?
A internacionalização e o reconhecimento internacional são objectivos que me são caros, mas trata-se de um processo muito lento, dispendioso e difícil. Saliento que a FLR só tem quatro anos de existência e serão também o tempo e as conjunturas internacionais a ditar o seu destino fora de Portugal. Tento estar presente nos mais variados e melhores eventos de arte contemporânea nacional e internacional, sempre com a intenção de promover a FLR e as obras que compõem a nossa colecção, incluindo as dos artistas portugueses apresentadas em contexto internacional.
O estabelecimento de uma boa rede de networking é extremamente importante. Estar presente nas feiras e exposições internacionais de referência, requer um enorme esforço pessoal, porque é fundamental estar disponível “física e mentalmente”. Tenho aceite convites para participar em Fóruns de Colecionadores, Talk Panels e conferências onde, de acordo com o tópico de conversa ou tema, e além de apresentar a FLR, tento contextualizar a nossa colecção no panorama da arte contemporânea nacional e internacional.
Foi o que aconteceu na Vienna Contemporary, em 2015 (como refere), quando debati o tema “Running Private Institutions” com Daniela Zyman, curadora do Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, em Viena, e Julie Boukobza, curadora independente e directora da 89 plus europe, de Paris. Bem como na ArtBo 2015, onde falei sobre "Public and Institutions" em conjunto com Leanne Sacramone, curadora da Fondation Cartier, em Paris e Christine Barthe, curadora da Coleção de Fotografia do Musée du Quai Brably, em Paris.
Graças a estas oportunidades e à presença da FLR, que procuramos que seja constante neste circuito, a nossa colecção tem angariado reconhecimento internacional. Integramos a Larry’s List ao lado de colecções como a Vanhaerents Art Collection, em Bruxelas, Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, em Turim e Majudia Collection, em Montreal. Mais recentemente, fazemos também parte do BMW Art Guide, ao lado de coleccionadores como os Rubell, Pétur Arason, Frédéric de Goldshmidt, Eugénio Lopez Alonso - Coleção Jumex, José Berardo ou, ainda, Ivo Wessel, detentor de um perfil de coleccionador com que muito me identifico.
O projecto mais recente da FLR é uma exposição do artista Luís Paulo Costa dividida em dois tempos: “Part One: One Another” que esteve patente até ao início de Maio e “Part Two: One and Other” que inaugura a 27 de Maio. Quer falar-nos um pouco sobre o processo que orientou a criação desta exposição?
A exposição individual do Luís Paulo Costa surge na FLR em dois momentos, apresentados no mesmo espaço expositivo. O trabalho do artista desenvolve-se, sobretudo, nos campos da pintura e da imagem, num sentido lato. Recorre frequentemente à instalação, enquanto medium, e explora a relação entre diferentes peças. A sua obra é provocadora, desafia de forma constante o observador, a sua condição e a sua percepção, através do tempo e do espaço de exposição. Razões que nos levaram a crer que a exposição funcionaria bem em dois momentos distintos. Esta nossa ideia inicial foi, curiosamente e sem a termos revelado, também proposta pelo artista.
Em “One Another” a memória do observador é convocada, algumas peças surgem no lugar de outras, trocam de lugar, surgem peças idênticas… Provocando uma série de encadeamentos ou momentos que, de alguma forma, transcendem o “evento” localizado e fixo da exposição. A exposição “Part Two: One and Other”, que inaugura no âmbito da ARCOlisboa, pretende apresentar o artista aos coleccionadores internacionais e segue a mesma direcção de “Part One”, reunindo um segundo grupo ímpar da obra de Luis Paulo Costa. No entanto, todas estas obras são anteriores aquelas apresentadas em “Part One: One Another”, remetendo as duas exposições para um confronto temporal, invertendo a ordem cronológica.
O trabalho foi desenvolvido com grande proximidade e resulta de uma participação intensa do artista, que assume, também, o papel de curador. Só assim foi possível aprofundar uma possível “teoria da imagem”, a sua mediação, ocultação ou revelação, quer do ponto de vista da pintura, quer através dos próprios media utilizados.
Esta abordagem é anterior ao projecto expositivo que eu propus inicialmente, integra o trabalho do artista, contudo, aqui é contemplada num período de tempo mais amplo que reúne a apresentação de um total de 15 obras, criadas entre 2000 e 2015, das quais 13 pertencem à colecção da FLR.
Ambições para o futuro: que novas exposições e projectos estão pensados a médio e longo prazo?
O projecto da FLR contempla a internacionalização da colecção através da formalização de protocolos com outras instituições internacionais. Processo iniciado com a exposição “Writing Diffraction”, que reuniu artistas portugueses e internacionais e foi apresentada em 2015 no âmbito do Festival LOOP, em Barcelona. Estão, igualmente, previstas itinerâncias desta exposição para Nova Iorque e Istambul, respectivamente em 2017 e 2018.
Num futuro próximo, mas ainda sem data definida, gostaríamos de abrir a colecção, na sua totalidade, a um ou mais curadores, para criar, aquela que imagino, como a primeira grande exposição da colecção da FLR. Trata-se da procura de um olhar curatorial externo sobre a coleção, já que até agora a todas as exposições têm sido totalmente curadas e organizadas por mim, em conjunto com o nosso curador assistente João Biscainho e os artistas envolvidos.
No âmbito do ensino e pesquisa, a FLR possui uma biblioteca com mais de nove mil livros de arte e design, que no final de 2017 vai ser aberta para consulta pública online, através da Europeana e dos portais Art.Libraries.Net.
Como encara as dinâmicas e que mais-valias acredita possam vir a ser potenciadas pela concentração de galerias, museus e outras estruturas, dedicadas à arte contemporânea, em certos bairros de Lisboa, como nos casos de Campo de Ourique e Chiado, Alvalade - no caso da FLR - e, mais recentemente, Xabregas?
Acredito que todas as dinâmicas concêntricas têm um bom potencial estratégico, seja para a comunidade local, seja para o público, se, para tal, forem orientadas. Pensemos num sistema de roldanas - a movimentação de uma roldana próxima de outra gera um movimento, várias interligadas geram múltiplas dinâmicas e novas direcções. Neste caso, passa pela criação de uma estratégia conjunta.
Contribuir para a dinamização da cidade, criando fluxos entre as pessoas e os locais, aproximando-os, motivando-os e gerando circuitos artísticos é um dos contributos mais importantes.


Nicolas Milhé, Meurtrière, 2008. Benoît-Marie Moriceau, The shape of things to come, l'abri anti-atomique,2010. Vista da Exposição “The Future is but the Obsolete in Reverse”, Fundação Leal Rios, 2013 © Os artistas e Fundação Leal Rios. Fotografia: João Biscainho