P. – uma homenagem a Paulo Cunha e Silva, por extenso

Miguel von Hafe Pérez

curador da exposição

 

 

P de Paulo. P de Porto. São raros os momentos em que uma cidade se identifica de modo tão empático com o pensamento e a ação de um seu protagonista. Pensamento e ação. São raras as pessoas que conseguem de forma tão cristalina estruturar um pensamento sobre a cidade e convocar, num arco de entusiasmo irradiante, a ação concretizadora. Assim aconteceu no vertiginoso período em que Paulo Cunha e Silva assumiu a vereação da cultura da Câmara Municipal do Porto. A magnitude e eloquência desse mandato repercute-se num travejamento conceptual e prático que indica um caminho sem volta atrás. Esse é o mérito dos grandes: apontar possibilidades onde nem todos as vislumbram e transformá-las em hábitos e necessidades imperativas.

Quando em 1990 organiza na Fundação de Serralves a exposição As Cores do Corpo, iniciava um continuado percurso que complementaria uma formação científica com uma visão da cultura, do pensamento e das expressões artísticas contemporâneas como mapeamento fundamental do ser no seu questionamento vital acerca daquilo que o rodeia. O cruzamento da arte e da ciência viria a constituir o seu território de especulação e experimentação privilegiado, ancorando no corpo as imagens possíveis de um passado criticamente escrutinado, um presente em polimórfico devir e um futuro desenhado a partir de uma vital e positiva certeza na capacidade de reinvenção individual e comunitária.

 

 

 

Vista da exposição "P. - uma homenagem a Paulo Cunha e Silva por extenso". Galeria Municipal do Porto. Fotografia: Filipe Braga. Cortesia do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto e da Divisão Municipal de Ação Cultural e Científica.
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O Paulo poderia ter sido um homem do pensamento, confinar-se a territórios que exemplarmente explorou: a investigação, a escrita, o comentário. No entanto, a sua paixão pelo outro e a dedicação à coisa pública acabariam por determinar uma ação pragmática que, essa sim, o completava e nos desafiava constantemente.

Em 1998, muito antes de assumir qualquer cargo público, e de modo quase premonitório, num artigo intitulado “Algumas notas, em forma de interrogação, sobre política cultural autárquica” (publicado na revista Hei!), refletia com a sua habitual densidade cristalina sobre algo que viria de ter de por em prática mais de uma década depois: “Qual a relação de programação entre a política cultural do poder central, do poder local, e das grandes instituições locais?

Poderia à primeira vista pensar-se que o bom-senso sugeriria a uma autarquia que pensasse numa programação generalista, com poucas pretensões de vanguarda, dirigida a públicos não diferenciados, deixando os grandes acontecimentos culturais, por um lado, e as manifestações de vanguarda, por outro, aos grandes centros culturais e aos locais de experimentação alternativa.

Pensamos que essa opção é uma opção errada, mesmo em termos de investimento político autárquico. A cultura é hoje, simultaneamente, um dos grandes palcos de afirmação política e, porventura, o melhor instrumento de visibilidade de quem a promove.

O investimento a fazer, mesmo por uma autarquia, deverá, sim, ser na originalidade e, sobretudo, na ousadia da programação. Importa não ter medo da vanguarda (até porque o discurso da vanguarda é cada vez mais um discurso institucional – as vanguardas foram consumidas pelo sistema). São a originalidade e a ousadia, as duas características que tornam atraente uma programação.”

 

Esta exposição articula o seu discurso visual mediante dois eixos: partindo do documento, onde se homenageia o fulgurante percurso deste agitador cultural, complementando-se com propostas artísticas de autores que o acompanharam nas suas interpelações ao fenómeno estético como veículo fundamental de uma apreensão esclarecida da realidade.

 

Transgeracional, e abarcando meios de expressão muito diversificados, a exposição ancora-se não numa discursividade linear, antes numa omnipresença mais ou menos elíptica: o corpo, na sua dimensão física, social e política.

Exercício indesejado, ingrato e exigente, este projeto curatorial espera fazer justiça ao Paulo. Responde, com a gravidade esperada, mas também com o humor que era a sua segunda pele, ao modo como informalmente se descrevia em 2007: “Sou muito solto. Porventura de mais. Quase o campeão da informalidade. Mas também patologicamente tímido, embora atrevido.”

 

 

O Paulo poderia ter sido um homem do pensamento, confinar-se a territórios que exemplarmente explorou: a investigação, a escrita, o comentário. No entanto, a sua paixão pelo outro e a dedicação à coisa pública acabariam por determinar uma ação pragmática que, essa sim, o completava e nos desafiava constantemente.

Em 1998, muito antes de assumir qualquer cargo público, e de modo quase premonitório, num artigo intitulado “Algumas notas, em forma de interrogação, sobre política cultural autárquica” (publicado na revista Hei!), refletia com a sua habitual densidade cristalina sobre algo que viria de ter de por em prática mais de uma década depois: “Qual a relação de programação entre a política cultural do poder central, do poder local, e das grandes instituições locais?

Poderia à primeira vista pensar-se que o bom-senso sugeriria a uma autarquia que pensasse numa programação generalista, com poucas pretensões de vanguarda, dirigida a públicos não diferenciados, deixando os grandes acontecimentos culturais, por um lado, e as manifestações de vanguarda, por outro, aos grandes centros culturais e aos locais de experimentação alternativa.

Pensamos que essa opção é uma opção errada, mesmo em termos de investimento político autárquico. A cultura é hoje, simultaneamente, um dos grandes palcos de afirmação política e, porventura, o melhor instrumento de visibilidade de quem a promove.

O investimento a fazer, mesmo por uma autarquia, deverá, sim, ser na originalidade e, sobretudo, na ousadia da programação. Importa não ter medo da vanguarda (até porque o discurso da vanguarda é cada vez mais um discurso institucional – as vanguardas foram consumidas pelo sistema). São a originalidade e a ousadia, as duas características que tornam atraente uma programação.”

 

Esta exposição articula o seu discurso visual mediante dois eixos: partindo do documento, onde se homenageia o fulgurante percurso deste agitador cultural, complementando-se com propostas artísticas de autores que o acompanharam nas suas interpelações ao fenómeno estético como veículo fundamental de uma apreensão esclarecida da realidade.

 

Transgeracional, e abarcando meios de expressão muito diversificados, a exposição ancora-se não numa discursividade linear, antes numa omnipresença mais ou menos elíptica: o corpo, na sua dimensão física, social e política.

Exercício indesejado, ingrato e exigente, este projeto curatorial espera fazer justiça ao Paulo. Responde, com a gravidade esperada, mas também com o humor que era a sua segunda pele, ao modo como informalmente se descrevia em 2007: “Sou muito solto. Porventura de mais. Quase o campeão da informalidade. Mas também patologicamente tímido, embora atrevido.”