João Mourão - Luís Silva: Olá Guerrilla Girls, muito obrigado pela vossa disponibilidade para conversarem connosco sobre o vosso projeto na Whitechapel. Esta conversa vai parecer, de certa forma, um pouco diferente do habitual porque a Kunsthalle Lissabon faz parte do projeto como uma das quatrocentas instituições europeias que vocês contactaram, ao enviarem um questionário. Podem falar-nos um pouco mais sobre esse questionário e como chegaram ao projeto Is it Even Worse in Europe? como uma resposta ao convite da Whitechapel?

 

Guerrilla Girls: Obrigado por terem sido uma das cem instituições que responderam. Colocámos algumas perguntas difíceis e foi muito interessante ver quem respondeu e quem não respondeu.

 

Fizemos It’s Even Worse in Europe em 1986 depois de enchermos as ruas de Nova Iorque durante um ano com pósteres com frases escandalosas, reforçadas por estatísticas que denunciavam o mundo da arte de Nova Iorque dominado por homens brancos. Fomos convidadas a vir à Europa algumas vezes e o mundo da arte europeia parecia ainda mais povoado por homens, com profundas ligações à história e ao poder europeus. Quando fizemos a simples declaração ‘It’s Even Worse in Europe’, toda a gente soube do que estávamos a falar.

 

Em 2015, no nosso 30º aniversário, decidimos rever alguns dos nossos pósteres mais antigos. E o que é que descobrimos? Que a situação não está muito melhor!

 

Estávamos meio nostálgicas quando a Whitechapel nos contactou e decidimos revisitar esse póster e reavaliar a diversidade na Europa. Enviámos um questionário a quatrocentas instituições na UE, Suíça e Noruega. Perguntámos “Quantas mulheres tiveram uma exposição individual na vossa instituição nos últimos cinco anos?”, “Quantos artistas na vossa coleção e/ou programa de exposições não se definem pelas categorias tradicionais de género?”, “Já recolheram estatísticas sobre as vossas exposições e coleções?” e uma pergunta final do tipo “Estão as piores práticas de museus norte-americanos a ser adotadas na Europa?”. Não estávamos a conduzir nenhum estudo estatístico, queríamos apenas ver o que as instituições tinham a dizer através das suas próprias palavras.

 

JM-LS: E a maior parte das pessoas nos lugares mais altos das instituições não respondeu, pois não? Ao olharmos para a informação na parede, percebemos que apenas uma pequena percentagem das instituições se deu de facto ao trabalho de responder às vossas perguntas. Tomando Portugal como exemplo, um exemplo que nos é muito próximo, ninguém, à excepção da Kunsthalle Lissabon, respondeu. Não podemos ignorar o facto de um colega, um curador que trabalha numa instituição de arte contemporânea, ter escolhido não responder. Porque acham que isto acontece? Consideraram a possibilidade de as perguntas nunca terem chegado aos curadores ou aos diretores dessas instituições? Poderão as perguntas ter sido tomadas como spam por alguém a trabalhar no departamento de comunicação, sem qualquer conhecimento da vossa prática ao longo das últimas três décadas, e sem saber quais as consequências dessa indisponibilidade para responder? Ou será, pelo contrário, uma expressa falta de vontade para lidar com estes assuntos?

 

GG: Não fazíamos ideia se todas as pessoas que receberam o nosso questionário sabiam quem nós éramos e desconhecemos a razão por que tantas instituições importantes, como o Pompidou onde mostrámos o nosso trabalho, não responderam. A diretora de uma kunsthalle ficou chocada por ver a sua instituição no chão junto com todas as outras que não responderam. No regresso, esta diretora descobriu que um curador tinha recebido os nossos emails mas que os tinha ignorado. Podemos imaginar o que aconteceu depois.

 

Cada instituição foi contactada individualmente três vezes com notificações e um aviso a informar que, respondendo ou não, a instituição estaria incluída na exposição. Um curador irritado tomou o nosso aviso mais como uma ameaça do que como um pedido, mas, para utilizarmos as vossas próprias palavras, apenas quisemos certificar-nos de que as consequências de uma indisponibilidade para responder seriam compreendidas. Acreditamos que as instituições públicas devem ser abertas e responsáveis. Podíamos ter feito a nossa própria pesquisa a partir dos websites, mas preferimos dar-lhes a oportunidade de responderem conforme entendessem.

 

Não sabemos por que razão foi maior o número de instituições que não respondeu do que aquele que respondeu, mas especialistas em marketing disseram-nos que uma taxa de resposta de 25% é BOA para um questionário que não foi solicitado!

 

JM-LS: Para nós, pelo menos, pensar sobre representação é um aspecto central da ação institucional (ou de uma ação institucional distinta) e sempre levámos a questão muito a sério, especialmente na Kunsthalle Lissabon. O trabalho de uma instituição não é apenas o de expor arte e apresentar artistas, mas também o de refletir sobre o que está a ser apresentado e, provavelmente mais importante ainda, sobre o que e quem é que está a ser apresentado (e representado). A questão do género é uma das nossas principais preocupações em termos de representação na nossa comunidade (alguns dirão campo profissional). Não podemos deixar de notar o facto de mulheres artistas serem tão pouco representadas. Apenas nos ocorrem duas razões para que isto aconteça:

 

a) existem mais homens do que mulheres artistas e b) os homens são, por definição, melhores artistas do que as mulheres. a) é facilmente descartado estatisticamente e b), bem, b) é apenas absurdo. A produção de arte e o cromossoma Y não estão correlacionados. E, no entanto, aqui estamos nós. Depois de várias vagas de crítica institucional e teoria crítica, que o mundo da arte adora, por que razão acham que isto ainda acontece?

 

GG: Qualquer pessoa que tenha visitado escolas de arte sabe que há tantos homens quanto mulheres artistas, por isso descartemos a primeira razão. Quando começámos em 1985, quase toda a gente acreditava que o sistema da arte se tratava de uma meritocracia, e se o trabalho de mulheres, artistas de cor, artistas LGBTQ não era mostrado era porque não era suficientemente bom. Agora, trinta anos depois, ninguém a não ser o pintor mais “macho” (alemão) defenderia que a história de arte da cultura pudesse ser escrita sem que fossem incluídas na história todas as vozes da cultura. É evidente que artistas mulheres, de cor e artistas que escapam às categorizações tradicionais de género se deparam com obstáculos que homens brancos heterossexuais não conhecem. É necessário muito tempo para que os paradigmas se alterem e algumas instituições estão a tentar, outras não e outras ainda que pensam que estão mas não estão. A mudança de um sistema exige sempre uma vigilância constante. As pessoas ficaram surpreendidas por ver números tão negativos, especialmente vindos de lugares que voluntariamente prestaram as informações. Vamos lá saber quão maus seriam nas instituições que não responderam! Nós acreditamos que o mundo da arte se foi convencendo de um falso sentido de diversidade, apoiado apenas num par de tokens [1]. Mas eis a diferença entre 1985 e 2016: agora não somos as únicas a queixar-nos e os media acompanham-nos imediatamente. Já não precisamos de convencer ninguém por que razão a diversidade é importante, só precisamos de insistir para que todos a respeitem.

 

 

Estávamos meio nostálgicas quando a Whitechapel nos contactou e decidimos revisitar esse póster e reavaliar a diversidade na Europa. Enviámos um questionário a quatrocentas instituições na UE, Suíça e Noruega. Perguntámos “Quantas mulheres tiveram uma exposição individual na vossa instituição nos últimos cinco anos?”, “Quantos artistas na vossa coleção e/ou programa de exposições não se definem pelas categorias tradicionais de género?”, “Já recolheram estatísticas sobre as vossas exposições e coleções?” e uma pergunta final do tipo “Estão as piores práticas de museus norte-americanos a ser adotadas na Europa?”. Não estávamos a conduzir nenhum estudo estatístico, queríamos apenas ver o que as instituições tinham a dizer através das suas próprias palavras.

 

JM-LS: E a maior parte das pessoas nos lugares mais altos das instituições não respondeu, pois não? Ao olharmos para a informação na parede, percebemos que apenas uma pequena percentagem das instituições se deu de facto ao trabalho de responder às vossas perguntas. Tomando Portugal como exemplo, um exemplo que nos é muito próximo, ninguém, à excepção da Kunsthalle Lissabon, respondeu. Não podemos ignorar o facto de um colega, um curador que trabalha numa instituição de arte contemporânea, ter escolhido não responder. Porque acham que isto acontece? Consideraram a possibilidade de as perguntas nunca terem chegado aos curadores ou aos diretores dessas instituições? Poderão as perguntas ter sido tomadas como spam por alguém a trabalhar no departamento de comunicação, sem qualquer conhecimento da vossa prática ao longo das últimas três décadas, e sem saber quais as consequências dessa indisponibilidade para responder? Ou será, pelo contrário, uma expressa falta de vontade para lidar com estes assuntos?

 

GG: Não fazíamos ideia se todas as pessoas que receberam o nosso questionário sabiam quem nós éramos e desconhecemos a razão por que tantas instituições importantes, como o Pompidou onde mostrámos o nosso trabalho, não responderam. A diretora de uma kunsthalle ficou chocada por ver a sua instituição no chão junto com todas as outras que não responderam. No regresso, esta diretora descobriu que um curador tinha recebido os nossos emails mas que os tinha ignorado. Podemos imaginar o que aconteceu depois.

 

Cada instituição foi contactada individualmente três vezes com notificações e um aviso a informar que, respondendo ou não, a instituição estaria incluída na exposição. Um curador irritado tomou o nosso aviso mais como uma ameaça do que como um pedido, mas, para utilizarmos as vossas próprias palavras, apenas quisemos certificar-nos de que as consequências de uma indisponibilidade para responder seriam compreendidas. Acreditamos que as instituições públicas devem ser abertas e responsáveis. Podíamos ter feito a nossa própria pesquisa a partir dos websites, mas preferimos dar-lhes a oportunidade de responderem conforme entendessem.

 

Não sabemos por que razão foi maior o número de instituições que não respondeu do que aquele que respondeu, mas especialistas em marketing disseram-nos que uma taxa de resposta de 25% é BOA para um questionário que não foi solicitado!

 

JM-LS: Para nós, pelo menos, pensar sobre representação é um aspecto central da ação institucional (ou de uma ação institucional distinta) e sempre levámos a questão muito a sério, especialmente na Kunsthalle Lissabon. O trabalho de uma instituição não é apenas o de expor arte e apresentar artistas, mas também o de refletir sobre o que está a ser apresentado e, provavelmente mais importante ainda, sobre o que e quem é que está a ser apresentado (e representado). A questão do género é uma das nossas principais preocupações em termos de representação na nossa comunidade (alguns dirão campo profissional). Não podemos deixar de notar o facto de mulheres artistas serem tão pouco representadas. Apenas nos ocorrem duas razões para que isto aconteça:

 

a) existem mais homens do que mulheres artistas e b) os homens são, por definição, melhores artistas do que as mulheres. a) é facilmente descartado estatisticamente e b), bem, b) é apenas absurdo. A produção de arte e o cromossoma Y não estão correlacionados. E, no entanto, aqui estamos nós. Depois de várias vagas de crítica institucional e teoria crítica, que o mundo da arte adora, por que razão acham que isto ainda acontece?

 

GG: Qualquer pessoa que tenha visitado escolas de arte sabe que há tantos homens quanto mulheres artistas, por isso descartemos a primeira razão. Quando começámos em 1985, quase toda a gente acreditava que o sistema da arte se tratava de uma meritocracia, e se o trabalho de mulheres, artistas de cor, artistas LGBTQ não era mostrado era porque não era suficientemente bom. Agora, trinta anos depois, ninguém a não ser o pintor mais “macho” (alemão) defenderia que a história de arte da cultura pudesse ser escrita sem que fossem incluídas na história todas as vozes da cultura. É evidente que artistas mulheres, de cor e artistas que escapam às categorizações tradicionais de género se deparam com obstáculos que homens brancos heterossexuais não conhecem. É necessário muito tempo para que os paradigmas se alterem e algumas instituições estão a tentar, outras não e outras ainda que pensam que estão mas não estão. A mudança de um sistema exige sempre uma vigilância constante. As pessoas ficaram surpreendidas por ver números tão negativos, especialmente vindos de lugares que voluntariamente prestaram as informações. Vamos lá saber quão maus seriam nas instituições que não responderam! Nós acreditamos que o mundo da arte se foi convencendo de um falso sentido de diversidade, apoiado apenas num par de tokens [1]. Mas eis a diferença entre 1985 e 2016: agora não somos as únicas a queixar-nos e os media acompanham-nos imediatamente. Já não precisamos de convencer ninguém por que razão a diversidade é importante, só precisamos de insistir para que todos a respeitem.