João Mourão - Luís Silva: Reconhecendo que a questão de o quê e quem é que se está a representar é de extrema importância, não receiam que, em certas condições, aqueles que estão a tentar representar acabem por se tornar, por exemplo, em tokens de nacionalidades e formações geopolíticas mais amplas como o Médio Oriente, a América Latina ou a Europa de Leste (que não constava do vosso questionário), ou outros grupos, nos quais não se enquadram necessariamente? Poderia essa ser uma crítica ao vosso questionário e, por conseguinte, a esta exposição? Para além disso, perguntamo-nos de que forma é que lidam com a crítica ao próprio questionário, tal como algumas das instituições o fizeram ao responderem às vossas perguntas.
Guerrilla Girls: Sim, recebemos algumas críticas por não termos incluído a Europa de Leste como uma categoria de diversidade e incluímos esses comentários na exposição. Foi pouco perspicaz assumirmos que apenas pelo facto de termos contactado tantas instituições no Leste europeu, isso por si tinha resolvido o assunto.
Utilizámos, de facto, categorias muito ‘amplas’: África, Ásia, Sul Asiático e América do Sul. Na verdade, começámos com uma lista bem maior, com muitas formações geopolíticas mais pequenas/com mais nuances, mas a lista estava a ficar cada vez maior e simultaneamente cada vez menos significativa. Acabámos por voltar às cinco pela simples razão de querer manter o formato (e a pergunta) o mais conciso possível. Temo-nos queixado da criação do tokenismo [2] desde 1995, quando notámos que um pouco por todos os EUA os museus apresentavam entre cinco a dez artistas diferentes e julgavam então que o problema estava resolvido. Pensámos que o tokenismo não era uma solução para o problema da exclusão mas uma continuação dele próprio. Vocês têm razão, pedir às instituições que considerem artistas com quem já trabalharam partindo de categorias geopolíticas nacionaliza-os, mesmo quando muitos deles já não vivem no lugar onde nasceram. Mas se alguma vez quisermos compreender o panorama cultural global, temos de procurar a diversidade de forma consciente. De outro modo, a cultura é nacionalizada e todos sabemos qual é o resultado.



Adorámos a vossa resposta quando disseram que seria ‘Triste e Estúpido’ uma organização nunca ter feito um levantamento estatístico sobre diversidade. Mas querem saber, muitas nunca o fizeram!


Dito isto, ADORÁMOS todas as críticas ao questionário que recebemos e incluímos a maior parte delas na exposição! Foram muito úteis e nunca voltaríamos a fazer esta exposição da mesma forma. Tal como muita arte, esta foi uma experiência com um resultado inesperado.
JM-LS: Obrigado por nos terem conduzido pelo projeto, foi ótimo passar este bocado convosco. O vosso trabalho tem sido muito importante para a nossa própria atividade curatorial e foi muito bom podermos ter tido esta conversa convosco!
Esta entrevista foi publicada originalmente, em inglês, no número 24 da revista CURA e traduzida para português por Gonçalo Gama Pinto.
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Notas do tradutor:

Guerrilla Girls. Is it even Worse In Europe? Vista da exposição. Whitechapel. Fotografia: Dan Weill. Cortesia de Guerrilla Girls e Whitechapel.
[1] Neste contexto, token, um termo da língua inglesa, refere-se a um gesto simbólico ou apenas aparente com o propósito de representar uma determinada minoria ou grupo sub-representado.
[2] Tokenismo, do inglês tokenism, é a prática de proceder apenas a esforços simbólicos ou superficiais numa determinada área de atividade, nomeadamente recrutando um pequeno número de pessoas de grupos sub-representados de modo a sugerir uma aparente igualdade sexual ou racial dentro de um meio.