João Mourão e Luís Silva: Cara Suzanne, obrigado por dedicar algum do seu tempo para discutir connosco alguns tópicos curatoriais a que temos dado particular atenção há já alguns anos. Basicamente, estes tópicos relacionam-se com o facto de que ao curarmos não estamos apenas a escolher o que vamos apresentar (conteúdo), mas como vamos apresentá-lo (ética), e ligado a isto quem e o quê estamos a representar quando apresentamos obras a um público.
A questão da representação tem vindo a ganhar recentemente uma maior relevância no nosso contexto local, a partir de um artigo publicado há alguns meses no Público que aprofundou o tema e também com este número especial da Contemporânea, editado pela Ana Cristina Cachola. Acreditamos mesmo que o projeto das Guerrilla Girls na Whitechapel Gallery em Londres foi, em parte, responsável por este interesse em saber quem é que o mundo da arte está, de forma coletiva enquanto enquadramento institucional, publicamente a representar.
Suzanne Cotter: Caro Luís, Caro João, eu acho o projeto das Guerrilla Girls em Londres interessante e concordo que tenha salientado a questão da representação nos museus e galerias em Portugal. Como muitas curadoras e diretoras de museus da minha geração e com a minha experiência, este é um tema que nunca deixou de estar na agenda. Quando cheguei a Serralves, herdei um programa e uma coleção essencialmente masculinos e ocidentais, algo que eu tenho vindo lentamente a trabalhar para mudar. No entanto, julgo que instituições e curadores esclarecidos estão hoje mais conscientes desta questão de uma representação equilibrada, não apenas para mulheres artistas mas para artistas de diferentes culturas, raças e orientações de género.
JM-LS: Enquanto diretora de um importante museu europeu de arte contemporânea, e enquanto mulher, como se sente sobre este renovado interesse na política de representação? Acha que é o momento oportuno para o regresso a esta discussão? Acredita que esta discussão possa ser vista como uma espécie de resposta a, ou como estando ligada a um clima político preocupante, tanto nos Estados Unidos como na Europa?
SC: Como disse anteriormente, não me parece que a questão da representação tenha estado alguma vez ausente, ainda menos neste momento em que o pensamento e a consciência pós-coloniais são largamente reconhecidos. É perfeitamente natural para mim, no meu papel, estar consciente da necessidade de uma representação equilibrada quando programo ou faço escolhas para a coleção, mas não o faço em termos de quotas ou percentagens. Qualquer artista cujo trabalho acaba por entrar na coleção ou que é exibido é considerado pela sua relevância artística. As políticas culturais e de género podem estar implícitas no trabalho, mas não sempre.
A alteração do clima político no Ocidente é, com certeza, algo de que todos os agentes culturais estão conscientes, mas precisamos de reconhecer que isto a que chamamos de tempos conturbados existe desde o 11 de Setembro. E mesmo antes disso, outras mudanças políticas tiveram lugar. O que mudou, e evidentemente de uma forma ostensiva desde o 11 de Setembro, foi a retórica e a realpolitik da inclusão. Para os museus esta é uma questão vital, uma vez que continuam a confirmar a sua relevância para diversas comunidades que fazem parte do nosso presente globalizado e transnacional através das suas políticas de programação e coleção, de formas que são reconhecidas pelos membros dessas comunidades.
JM-LS: Assumindo que metade do público de um museu é composta por mulheres (e este é apenas um palpite, porque não temos números efectivos sem ser os da Kunsthalle Lissabon), quais são para si as consequências de se apresentar um programa de exposições essencialmente centrado em homens ou de se desenvolver uma coleção maioritariamente masculina?
SC: Depende do projecto e da missão da instituição. Existem coleções dedicadas a mulheres, outras possivelmente a homens, tal como haverá coleções dedicadas a arte religiosa ou a outras categorias. No caso do museu de arte contemporânea, não é concebível que se apresente um programa ou que se desenvolva uma coleção que não ofereça um olhar verdadeiro e equilibrado da produção artística de um dado período. O museu deve oferecer um reflexo do mundo através das expressões dos artistas. Como sabemos, é também aqui que permitimos a possibilidade das pessoas descobrirem e refletirem sobre diferentes pontos de vista e diferentes realidades. Através disto, a experiência do museu enquanto modelo para uma tolerância e co-existência, no sentido cosmopolita descrito por Kwame Anthony Appia, é fundamental.
JM-LS: Pensando na exposição itinerante de Helena Almeida ou no primeiro projeto institucional de Ana Manso, interrogamo-nos sobre a forma como esta reflexão em curso se materializa no resultado público do museu. É apenas através da exposição (ao oferecer visibilidade) que estes assuntos podem ser abordados ou existem outras formas através das quais o museu pode agir institucionalmente de forma diferente?
SC: As exposições são uma plataforma óbvia e muito tangível para a representação de diversas posições e pontos de vista artísticos. É importante lembrar que as exposições não se materializam sozinhas. São antes o resultado de pesquisa e de um estudo continuado, a ponta de um iceberg maior. No caso do museu, as exposições estão também relacionadas com estratégias de coleção. Ambas oferecem uma visão mais ampla do trabalho de um artista, como acontece com o caso de Helena Almeida e com a recente exposição do nosso trabalho, e, no caso de artistas mais jovens, como a Ana Manso, revelam a promessa de um futuro para a arte que julgamos ser relevante e credível. Esta questão da visibilidade é fundamental.
JM-LS: Acha que a coleção do museu e o seu programa operam de formas diferentes em termos de representação? Perguntamos-lhe isto porque enquanto o programa de exposições se foca na produção do presente, a coleção tende a produzir um passado que sirva de referência para um futuro que ainda não aconteceu.
SC: Eu não acho que uma coleção produza por si mesma um passado. Uma coleção é simultaneamente um documento de um conjunto de atitudes de algo que se tornou, possivelmente, história passada, mas penso que isto dependerá da natureza da arte que, como sabem, está a ser radicalmente redefinida partindo de uma produção estática no tempo para algo que está condicionado ao momento em que está a ser mostrado, um conceito que remonta aos anos 60. Depende da abordagem à coleção e ao seu display.
Uma coleção que esteja estabelecida de acordo com certos critérios que não tenham em conta esta questão da representação é evidentemente diferente de um programa que procura abordar isto no presente. No entanto, o que é interessante é pensar como se pode inverter a tendência de não-diversidade numa colecção mais antiga, de modo a corrigir desigualdades detetadas. Mais uma vez, não se trata apenas do trabalho de mulheres artistas, que é vital e a fonte de uma pesquisa curatorial e académica intensa atualmente, mas também da produção artística e cultural que vai para além dos cânones previamente estabelecidos focados no ocidente, na América e na Europa.
JM-LS: Apesar de o facto de cada vez mais mulheres do que homens se formarem em escolas de arte, o mundo da arte ainda é muito dominado por homens, mesmo nas gerações de artistas mais jovens. Na sua opinião, quais são os processos que contribuem para esta situação? Acredita que o museu, definido como a esfera pública, deveria ter um papel na prevenção deste tipo de situações? Se sim, qual deveria ser?
SC: O papel que o museu pode desempenhar é o de prestar atenção, construir uma coleção e oferecer exposições a artistas que sejam também mulheres, permitindo igualmente a pesquisa académica sobre a história da arte na qual mulheres artistas tenham participado.
Contudo, esta é também uma questão que precisa ser considerada a partir de um conjunto de pontos de vista culturais e institucionais mais amplo. Por que razão existem mais homens na liderança em áreas como a política, os negócios, e mesmo na direção de museus, teatros, orquestras e tudo o mais?
+ info:
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
