Cabelo e mãos (continuação)
por Pedro Barateiro
Em Novembro de 2015 apresentei no espaço A Montra, em Lisboa, a primeira leitura pública do texto Cabelo e mãos. Este é o título provisório de um conjunto de escritos que pretendo juntar em texto e que estou escrever há algum tempo. Trata-se de um auto-retrato escrito ou o encontro entre o auto-retrato (como é chamado em artes visuais) e a autobiografia. Este auto-retrato tem a forma de um documento que vai crescendo, alterando o mínimo possível aquilo que foi escrito previamente. Nos excertos de texto que se seguem, a linguagem escrita é utilizada na representação da minha identidade, onde se cruzam factos e episódios da minha vida que se vão misturando com memórias, ao mesmo tempo documentais e ficcionais. É a tentativa de desconstruir duas estruturas de auto-representação, questionando a forma como a identidade e a subjectividade são representadas. Percebi cedo que aquilo que mais gostava de fazer – desenhar – era uma forma de alimentar e construir o meu imaginário próprio e individual, uma forma de me relacionar com o mundo, feito de encontros com os outros (pessoas, objectos, eventos). A minha subjectividade, a minha identidade e o meu género foram sendo construídos a partir desses encontros, a relação com o corpo e a tomada de consciência dos movimentos que se produzem entre o cérebro e a coreografia corporal moldaram os meus gestos, a projecção do desejo, a relação com os objectos, os textos, as imagens, a música.
A forma de trazer para o meu trabalho a discussão em torno das questões de género não é óbvia. Por esse motivo decidi reproduzir nas páginas seguintes partes do texto onde alguns dados biográficos são mais claros. O convite para trazer à discussão as questões de género faz com que se abra um espaço de reflexão consequente e integrado no contexto social, político e cultural, de um assunto que tem que ver com a igualdade entre sexos e a aceitação de múltiplas formas de reconhecimento da espécie humana. O género é uma construção cultural e é por esse motivo que pode e deve ser pensado a partir da prática artística, não apenas como uma estratégia curatorial ou académica, mas como um campo de acção no qual as artes visuais também devem fazer parte. A discussão em torno das questões de género traz consigo o questionamento de estruturas bastantes sólidas do ponto de vista daquilo que é considerado em biologia como a evolução da espécie humana e da sua relação com a natureza. Interessa-me interrogar estruturas que têm a sua origem em processos de padronização dos comportamentos físicos e mentais e a forma como estes colonizam o nosso pensamento e a nossa imaginação.
A auto-representação, que aqui tem a forma de um texto, serve para aprofundar a complexidade da construção da identidade. Estou consciente de que não vale a pena falar em categorias se não for para estas serem questionadas e abrirem um espaço de liberdade de expressão do indivíduo em relação à comunidade que este tenta construir e que o constrói de volta.
Página número 11, terceiro parágrafo
Uma parte da minha vida foi passada na Calçada da Estrela. Eu e o meu amigo Sérgio descíamos de skate até à Assembleia da República. Nunca conseguimos fazê-lo de pé, era demasiado inclinado. E lá em baixo ficávamos a olhar para as janelas laterais do edifício branco. Quieto como uma esfinge. Uma parede onde não se pode escrever nem fazer perguntas. Voltei ali várias vezes até ao dia 24 de Novembro de 1994 para a manifestação de estudantes contra as propinas. A carga policial sobre os manifestantes foi das maiores desde o fim do regime fascista. O que levou mais tarde a outras contestações por parte dos estudantes. Lembro-me que muitos de nós usávamos t-shirts brancas. Algumas com mensagens. E no momento em que devíamos partir montras e incendiar carros, para mostrar a violência que nos define e que tentamos esconder a todo o custo, decidimos escrever cartazes que não ensinavam ninguém a ler. Como os monumentos que caem todos os dias. E os monumentos foram feitos para cair. É essa a sua primeira função. O poema ensina a cair, como escreveu Luiza Neto Jorge.
Página número 106, segundo parágrafo
A contar pela minha data de nascimento, faço parte daquilo a que se chama Geração X ou Geração Rasca. A minha geração é a de quem viveu a adolescência nos anos 90. Quando tinha 13 anos, tinha um boné em cabedal preto com um x bordado a branco. Há um x que é utilizado hoje em dia para evitar escrever num determinado género, por exemplo: todxs, amigxs.
Página número 21, terceiro parágrafo
Eu nunca soube ser homem, ou o que quer que isso signifique. Nunca mo disseram, mas estava lá. Responder a categorias. Dizer que não tenho carta de condução ainda soa estranho. É um ritual. Mas os meus rituais sempre foram outros. Estava-me nas tintas (literalmente também) para estas convenções. Com o meu pai fui à caça no Alentejo. Passava dias inteiros no cabeleireiro da minha mãe. Com uns 11 anos fui com o meu pai a um daqueles bares perto da Lisnave. Com a minha mãe aprendi a fazer madeixas. Com o meu pai sentei-me ao volante de um carro e de um barco. O volante de um barco é bem melhor. Com a minha mãe aprendi a usar uma tesoura e a moldar o cabelo de outras pessoas e o meu. Quando estudava nas Caldas da Rainha cortava o cabelo a alguns amigos em troca de cervejas. Passava horas ao lado da minha avó a vê-la a costurar. Foi nesse mesmo quarto de costura que pela primeira vez percebi o que é ser um menino e quais são as convenções. Eu sou a minha avó, o meu avô, o meu pai e a minha mãe. Eu sou a minha mãe. Os dedos, a tesoura, o lápis. O volante. Normatividade doentia. Cabelo. Desenhos. Biologia. Calças de ganga e t-shirt branca.
Página número 57, segundo parágrafo
A voz. Auto-retrato feito da coisa mais imaterial. A voz. O que dá corpo ao corpo. A voz. Um som estranho, como se nunca tivesse saído da puberdade. A voz. Aquele momento em que os graves e os agudos se misturam. A voz. Os momentos em silêncio. A voz. Os desenhos. A voz. As coisas escritas. A voz. A escrita como espaço de liberdade porque é a materialização da voz. Alguns afirmam que existe sempre algum temor em cada auto-retrato, seja em pintura, fotografia ou escultura. Teme-se a análise introspectiva, teme-se o conhecimento que ultrapasse a barreira da fantasia, que faça desmoronar um ideal. O auto-retrato, tal como a auto-biografia ou o livro de memórias, tende a ser uma mentira. É uma construção. E este auto-retrato continua a ser escrito.
Página número 27, primeiro parágrafo
É estranho estar aqui, neste lugar onde passei tantos anos da minha vida. Eu vivi e cresci aqui. Nesta rua. Nesta mesma rua. E olhava para as pessoas, como vocês estão a olhar para mim. E desde pequeno que tenho vergonha do meu nariz. E como era muito tímido, tinha um relação bastante complexa com o meu corpo. Era muito magro. Não correspondia ao corpo normal. Era e sou efeminado. Uma palavra que não sabemos dizer correctamente. Significa perder ou fazer perder as características tradicionalmente consideradas masculinas para adoptar outras geralmente associadas ao sexo feminino. A grande parte das pessoas não sabia como me identificar. Haviam sempre dúvidas. Nos meus amigos da escola. Na minha família sempre me acharam estranho. Passou a ser natural. Era, e sou, tímido. Passava muito tempo quieto a desenhar. Mas a minha timidez era ousada. Como é a de todas as pessoas mais fechadas. E agora acho que talvez fosse uma forma de chamar à atenção. Mas não era uma chamada de atenção do género, olhem para mim. Era uma forma de fazer as pessoas olharem para o que eu estava a fazer. Como aquela ideia de que se fizermos a mesma coisa durante muito tempo talvez alguém pare e repare no que estamos a fazer.
Página número 63
Tenho a necessidade que gostem daquilo que faço.
Não mudo com muita frequência as fotografias de perfil no Facebook.
Interesso-me por códigos e algoritmos. Actualização constante da estrutura. Padrões de comportamento.
Acho que são as nossas obsessões aquilo que melhor nos define.
Que as opiniões mudem mas que não mude o essencial.
O mais básico.
O medo é uma parede.
A invisibilidade do discurso.
Novos totalitarismos não-políticos.
Autor. Sem autoridade.
O princípio da acção.
O país da não-inscrição.
Não há drama, tudo é intriga e trama, escreveu alguém num graffiti ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina.
A organização do espaço.
O trauma produz aquilo que se chama de branco psíquico, a paragem de toda a actividade psíquica, em conjunto com a instauração de um estado de passividade desprovido de qualquer forma de resistência.
Estamos a ultrapassar essa barreira.
E os dias passam pelos nossos cabelos.
E há dias em que acordo sem mãos.
Página número 151, terceiro parágrafo
Este texto terá de ser algo que possa, um dia, ser lido e entendido pelo meu filho. Explicar-lhe o entendimento que tive de ter, no dia em que o questionei sobre o rumor que tinha ouvido de um dos pais na escola, que diziam que ele era namorado da Madalena, ao qual ele me respondeu que sim, eram a Madalena e o Afonso os seus namorados. Porque são os seus melhores amigos. Parece-me que vou ter mais momentos destes durante os próximo anos. Na altura certa (quando?), quero fazê-lo entender que o desejo sexual por outra pessoa é na verdade a descoberta de nós próprios, do nosso desejo pelo mundo, do nosso lugar. E que o capital alterou tanto a forma como olhamos uns para os outros, para os outros seres vivos e para a natureza, que só destruíndo todos os objectos que nos objectificam, conseguiremos uma nova relação com o mundo e com nós próprios. Para já é impossível dizê-lo desta maneira. Resta-me dizer-lhe para se inspirar no êxtase que só a natureza consegue transmitir, que seja amigo e que ame qualquer pessoa sem que o seu género tenha de corresponder àquilo que os amigos acham que deve ser. Que deve pensar com a sua própria cabeça, deixar a sua subjectividade livre. A liberdade é apenas uma palavra e não quer dizer nada se tudo o que praticarmos for o oposto. Não chegam posts no Facebook. Não chegam abaixo-assinados. O acesso a mais informação faz-nos prisioneiros de nós próprios. Cada vez mais subjectivos, ao mesmo tempo que somos programados por algoritmos sem qualquer noção de ética. Não me interessa escrever mais se não for para dizer isto. Não podemos parar de nos alimentar da nossa projecção no mundo, mas podemos fazê-lo de uma forma muito menos violenta.
imagens das páginas a seguir: © Pedro Barateiro. Cortesia do artista.
