FAQ – Perguntas frequentes sobre Feminismo

 

By Pipi Colonial

 

 

 

1. Nunca me senti discriminado/a, nem conheço ninguém que eu saiba ter sido discriminada/o, por isso não tenho necessidade de ser feminista. Esta é uma razão válida?

 

Não, porque o feminismo não é uma causa individual. Se assim fosse, não se chamaria feminismo, mas sim Maria João, Patrícia, Andreia, etc. Esta posição equivale a dizer que não sente necessidade de lutar contra a pobreza, porque nunca se sentiu pobre. Quem diz pobreza diz homofobia, racismo, etc. O feminismo parte precisamente de reconhecer desigualdades sistémicas que afectam (ou não) sujeitos de forma diferenciada. Reconhecer que outros são afectados ao passo que eu não é já uma maneira de identificar a forma diferenciada como o sexismo é exercido. Cumpre-nos pois estar atento/as a estas formas de discriminação, independentemente de elas nos afectarem ou não. Ainda assim, o mais provável é ter sido afectado/a e nunca se ter dado conta (ver pergunta 3).

 

2. O feminismo é contra os homens?

 

Não. O feminismo é contra sistemas de organização social que beneficiam um género em detrimento de outro. O que o feminismo faz é advogar equidade entre géneros. Isto não quer dizer que as mulheres “devem trabalhar nas minas se querem realmente ser iguais aos homens”, mas que devem poder fazê-lo se assim o entenderem e desejarem. O feminismo não defende que as pessoas são todas iguais, antes procura demonstrar que os géneros são construídos social e culturalmente de forma diferenciada (desde a cor do babygrow à ladies night) e que isso tem implicações em vários domínios da vida social. De igual modo, o feminismo não promove o binarismo homem/mulher, antes questiona a forma como estes binarismos são socialmente construídos e reproduzidos.

 

3. O feminismo não é mera vitimização?

 

O feminismo é muitas vezes desacreditado como uma estratégia de vitimização, como se as razões para se advogar o feminismo não fossem realmente válidas ou sequer existentes. Este argumento normalmente é usado por quem não consegue ainda discernir a diferença entre sexismo explícito ou extremo e sexismo subliminar, quotidiano ou sistémico. O sexismo extremo é fácil de detectar: quando as mulheres são impedidas de votar, conduzir, frequentar determinados espaços públicos, condenadas à morte por questões de honra. O sexismo subliminar é insidioso: quando a mulher recebe salários inferiores ao homem pelas mesmas tarefas (o chamado sexismo ocupacional), porque o trabalho da mulher é culturalmente desvalorizado em relação ao do homem, que é visto mais como mais assertivo, confiante e experiente, ou porque a mulher, por convenções sociais, não adquiriu hábitos de negociação semelhantes aos dos homens; quando a maior parte das tarefas domésticas recai sobre a mulher devido a convenções sociais, ao invés de ser partilhada mais equitativamente, impedindo-a de exercer outras actividades (nem que seja o ócio); quando a mulher está exposta a determinados perigos (assédio sexual, violação) muitas vezes difíceis de provar em sede própria (o que não quer dizer que os homens não estejam expostos a estes perigos, mas de forma desproporcional e diferenciada); quando as mulheres estão sujeitas a padrões de beleza e desempenho social que não são exigidos aos homens (o que não quer dizer que os homens não estejam crescentemente sujeitos a padrões de beleza e desempenho social, mas de forma desproporcional e diferenciada); no mundo da arte em particular, quando uma mulher é rejeitada por uma galeria, que prefere não representar artistas mulheres porque a possibilidade de constituírem família reduz as possibilidades de ascensão profissional. A lista é extensa, mas o argumento pode resumir-se da seguinte forma: 1) não é preciso sermos vítimas de sexismo para sermos feministas; 2) ainda assim, o mais provável é sermos ou termos sido vítimas de sexismo sem nos termos apercebido, porque ele também opera de forma invisível; 3) há muitas formas de sexismo, das mais extremas às mais subtis, e não é pelo facto de existirem formas extremas que as formas subtis deixam de ser relevantes; 4) acusar uma vítima de vitimização é precisamente uma forma de sexismo/misoginia.

 

4. Não é problemático combater a discriminação de género em detrimento de outras formas de discriminação?

 

O feminismo emergiu como um movimento de combate à desigualdade de género, o que não exclui a consciência de outras formas de discriminação. O chamado feminismo interseccional atenta precisamente à forma como a discriminação opera de forma diferenciada, intersectando com categorias de classe, raça, sexualidade, religião. O feminismo é contra o racismo, a homofobia, a transfobia, a exclusão económica, e todas as formas de discriminação.

 

5. O género do artista deve sobrepor-se à qualidade da obra?

 

Não, não deve, mas o género do artista sobrepõe-se à qualidade da obra. É exactamente esse o problema. É comum dizer-se que não se pensa no género do ou da artista quando se atenta a uma obra de arte. Mas é necessário reconhecer que uma obra de arte é sempre resultado de uma série de processos sociais que são invisíveis no momento em que a contemplamos. Antes de uma obra ser exposta numa galeria, num museu, ou num livro de história da arte, ela passou por um conjunto de instâncias de exclusão e legitimação social em que categorias de género operam de forma sistémica.

 

Exemplos: 1) as instâncias de validação do campo artístico continuam a ser maioritariamente masculinas: críticos, historiadores de arte, professores catedráticos, directores de museus, galeristas, coleccionadores, direcções editoriais de meios de comunicação, entre outros. Não queremos com isto dizer que o facto de estes agentes serem maioritariamente homens conduz sempre e directamente a uma exclusão das mulheres, mas que determinadas práticas se vão reproduzindo sem que sejam questionadas devido à endogamia e falta de diversidade, nomeadamente a repetição do mesmo rol de artistas por hábito, afinidades electivas e desconhecimento (por vezes o facto de estas funções serem assumidas por mulheres não introduz necessariamente diversidade, pois muitas mulheres tendem a reproduzir o cânone; por outro lado existem obviamente homens com trabalho neste campo que são sensíveis a agendas feministas, e este número felizmente aparenta estar a aumentar). 2) Desta constelação emerge também uma política do gosto, isto é, o gosto (ou gostos) dominante tem fundamentação histórica e efeitos políticos. O cânone modernista (do qual o feminismo foi excluído, e que o feminismo procurou questionar) continua a exercer uma influência significativa no gosto das instituições e agentes do sistema, em particular no circuito comercial, mas não só. Isto determina, por vezes, que o trabalho artístico historicamente associado ao género masculino seja mais valorizado. 3) O trabalho artístico das mulheres, por sua vez, continua a ser essencializado por diversos agentes, isto é, muitas vezes é relegado a uma função de representatividade. O trabalho artístico de mulheres muitas vezes é exposto no âmbito de “arte feita por mulheres”, o que pode contribuir para reproduzir uma falsa especificidade do trabalho artístico das mulheres (a ideia de que a arte feita por mulheres é necessariamente diferente, mais “frágil”, mais “delicada”, mais “sensível”), ao invés de o admitir ao cânone artístico e assim o diversificar. 4) Porque o trabalho artístico das mulheres é monetariamente menos valorizado, o sistema tende a dar visibilidade ao trabalho produzido por homens. Muitas vezes se perguntam porque os artistas homens têm mais sucesso. A verdade é que a própria noção de sucesso é masculinizada, ou seja, o sucesso é definido por critérios de valorização monetária das obras, exposição mediática e circulação internacional que dependem dos sistemas de validação predominantemente masculinos de um sistema económico capitalista. Importa pois pensar nas noções de sucesso que o sistema artístico perpetua e atentar a outras formas de sucesso que a noção dominante muitas vezes torna invisível. É através destas formas que o género condiciona e determina, de forma prévia, a arte que nos é dada a ver, mesmo que não nos demos conta dele.

 

6. Sou curador/a e quero fazer uma exposição só com homens, posso?

 

Legalmente, sim, pelo menos em Portugal. Em muitos países já existe regulamentação da representatividade em instituições culturais públicas de forma a acelerar um processo de equidade representativa e de responsabilidade ética e social no campo artístico e alinhar a instituição com os públicos que serve e com o bom senso. Noutros países apenas é legal fazer exposições só com homens, uma vez que às mulheres é legalmente interdita qualquer actividade criativa ou laboral. No entanto, a arte contemporânea entendida não só enquanto intervalo temporal de produções artísticas datadas, mas como território articulado pela falência de meta-narrativas, pela desconstrução de identidades monolíticas ou essencializadas e pelo questionamento de dispositivos discursivos, deve ser acompanhada de um posicionamento curatorial que não oblitere estas predisposições. Ainda assim, legalmente pode fazê-lo, assim como pode realizar exposições em que apresente apenas obras ou objectos produzidos por unicórnios, girafas, rinocerontes, ananases, bananas ou alfaces se achar que essa é uma prática ética e esteticamente responsável. Também pode nunca incluir em exposições obras ou objectos produzidos por unicórnios, girafas, rinocerontes, ananases, bananas ou alfaces se achar que estes seres míticos e/ou vivos não existem, não os conhece, não lhe ocorreu, não pensou neles enquanto artistas ou se acreditar que a qualidade artística das obras ou objectos executados por eles é menor e não é digna de integrar uma exposição, ou não faz distinção entre os seres vivos produtores de obras de arte, se achar que essa é uma prática ética e esteticamente responsável e válida.

 

7. Uma curadoria/direcção feminina pode resolver o problema da desigualdade de género?

 

Embora haja cada vez mais mulheres a assumir funções de curadoras e directoras, nem sempre se encontram motivadas por uma agenda feminista. É certo que diversas figuras têm sido responsáveis por iniciativas que procuram “diversificar o cânone”, nomeadamente em instituições de proa como a Tate Modern, onde se tem assistido a um aumento de exposições individuais de artistas mulheres sob a direcção de Frances Morris. É preciso, no entanto, ter em conta que nem sempre uma direcção feminina equivale a uma direcção feminista, sendo muito frequente que curadoras, galeristas, directoras reproduzam, consciente ou inconscientemente, não só o cânone artístico masculino, mas também práticas sociais machistas, como por exemplo galeristas mulheres que preferem representar mais artistas homens por apresentarem melhores perspectivas de carreira, ou mulheres curadoras que expõem poucas ou nenhumas mulheres, quer porque procuram uma legitimação do meio expondo artistas homens de grande notoriedade, quer porque não se apercebem nem questionam a naturalização do cânone masculino, ou porque não se revêem numa agenda feminista. Apenas uma direcção esclarecida e informada pode resolver este problema - e esta direcção pode ter muitos géneros.

 

8. Tenho receio de afirmar publicamente que sou feminista porque receio que a minha actividade (artística, curatorial, etc.) passe a ser rotulada ou menorizada. O que devo fazer?

 

A auto-censura é mais um sintoma de sexismo internalizado. Identifique todas aquelas pessoas que o/a menorizem ou rotulem e afasta-se delas o mais rapidamente possível.

 

 

 

Dúvidas, pedidos de esclarecimentos e críticas podem ser endereçados a: pipicolonial@gmail.com

 

 

 

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1. Nunca me senti discriminado/a, nem conheço ninguém que eu saiba ter sido discriminada/o, por isso não tenho necessidade de ser feminista. Esta é uma razão válida?

 

Não, porque o feminismo não é uma causa individual. Se assim fosse, não se chamaria feminismo, mas sim Maria João, Patrícia, Andreia, etc. Esta posição equivale a dizer que não sente necessidade de lutar contra a pobreza, porque nunca se sentiu pobre. Quem diz pobreza diz homofobia, racismo, etc. O feminismo parte precisamente de reconhecer desigualdades sistémicas que afectam (ou não) sujeitos de forma diferenciada. Reconhecer que outros são afectados ao passo que eu não é já uma maneira de identificar a forma diferenciada como o sexismo é exercido. Cumpre-nos pois estar atento/as a estas formas de discriminação, independentemente de elas nos afectarem ou não. Ainda assim, o mais provável é ter sido afectado/a e nunca se ter dado conta (ver pergunta 3).

 

2. O feminismo é contra os homens?

 

Não. O feminismo é contra sistemas de organização social que beneficiam um género em detrimento de outro. O que o feminismo faz é advogar equidade entre géneros. Isto não quer dizer que as mulheres “devem trabalhar nas minas se querem realmente ser iguais aos homens”, mas que devem poder fazê-lo se assim o entenderem e desejarem. O feminismo não defende que as pessoas são todas iguais, antes procura demonstrar que os géneros são construídos social e culturalmente de forma diferenciada (desde a cor do babygrow à ladies night) e que isso tem implicações em vários domínios da vida social. De igual modo, o feminismo não promove o binarismo homem/mulher, antes questiona a forma como estes binarismos são socialmente construídos e reproduzidos.

 

3. O feminismo não é mera vitimização?

 

O feminismo é muitas vezes desacreditado como uma estratégia de vitimização, como se as razões para se advogar o feminismo não fossem realmente válidas ou sequer existentes. Este argumento normalmente é usado por quem não consegue ainda discernir a diferença entre sexismo explícito ou extremo e sexismo subliminar, quotidiano ou sistémico. O sexismo extremo é fácil de detectar: quando as mulheres são impedidas de votar, conduzir, frequentar determinados espaços públicos, condenadas à morte por questões de honra. O sexismo subliminar é insidioso: quando a mulher recebe salários inferiores ao homem pelas mesmas tarefas (o chamado sexismo ocupacional), porque o trabalho da mulher é culturalmente desvalorizado em relação ao do homem, que é visto mais como mais assertivo, confiante e experiente, ou porque a mulher, por convenções sociais, não adquiriu hábitos de negociação semelhantes aos dos homens; quando a maior parte das tarefas domésticas recai sobre a mulher devido a convenções sociais, ao invés de ser partilhada mais equitativamente, impedindo-a de exercer outras actividades (nem que seja o ócio); quando a mulher está exposta a determinados perigos (assédio sexual, violação) muitas vezes difíceis de provar em sede própria (o que não quer dizer que os homens não estejam expostos a estes perigos, mas de forma desproporcional e diferenciada); quando as mulheres estão sujeitas a padrões de beleza e desempenho social que não são exigidos aos homens (o que não quer dizer que os homens não estejam crescentemente sujeitos a padrões de beleza e desempenho social, mas de forma desproporcional e diferenciada); no mundo da arte em particular, quando uma mulher é rejeitada por uma galeria, que prefere não representar artistas mulheres porque a possibilidade de constituírem família reduz as possibilidades de ascensão profissional. A lista é extensa, mas o argumento pode resumir-se da seguinte forma: 1) não é preciso sermos vítimas de sexismo para sermos feministas; 2) ainda assim, o mais provável é sermos ou termos sido vítimas de sexismo sem nos termos apercebido, porque ele também opera de forma invisível; 3) há muitas formas de sexismo, das mais extremas às mais subtis, e não é pelo facto de existirem formas extremas que as formas subtis deixam de ser relevantes; 4) acusar uma vítima de vitimização é precisamente uma forma de sexismo/misoginia.

 

4. Não é problemático combater a discriminação de género em detrimento de outras formas de discriminação?

 

O feminismo emergiu como um movimento de combate à desigualdade de género, o que não exclui a consciência de outras formas de discriminação. O chamado feminismo interseccional atenta precisamente à forma como a discriminação opera de forma diferenciada, intersectando com categorias de classe, raça, sexualidade, religião. O feminismo é contra o racismo, a homofobia, a transfobia, a exclusão económica, e todas as formas de discriminação.

 

5. O género do artista deve sobrepor-se à qualidade da obra?

 

Não, não deve, mas o género do artista sobrepõe-se à qualidade da obra. É exactamente esse o problema. É comum dizer-se que não se pensa no género do ou da artista quando se atenta a uma obra de arte. Mas é necessário reconhecer que uma obra de arte é sempre resultado de uma série de processos sociais que são invisíveis no momento em que a contemplamos. Antes de uma obra ser exposta numa galeria, num museu, ou num livro de história da arte, ela passou por um conjunto de instâncias de exclusão e legitimação social em que categorias de género operam de forma sistémica.

 

Exemplos: 1) as instâncias de validação do campo artístico continuam a ser maioritariamente masculinas: críticos, historiadores de arte, professores catedráticos, directores de museus, galeristas, coleccionadores, direcções editoriais de meios de comunicação, entre outros. Não queremos com isto dizer que o facto de estes agentes serem maioritariamente homens conduz sempre e directamente a uma exclusão das mulheres, mas que determinadas práticas se vão reproduzindo sem que sejam questionadas devido à endogamia e falta de diversidade, nomeadamente a repetição do mesmo rol de artistas por hábito, afinidades electivas e desconhecimento (por vezes o facto de estas funções serem assumidas por mulheres não introduz necessariamente diversidade, pois muitas mulheres tendem a reproduzir o cânone; por outro lado existem obviamente homens com trabalho neste campo que são sensíveis a agendas feministas, e este número felizmente aparenta estar a aumentar). 2) Desta constelação emerge também uma política do gosto, isto é, o gosto (ou gostos) dominante tem fundamentação histórica e efeitos políticos. O cânone modernista (do qual o feminismo foi excluído, e que o feminismo procurou questionar) continua a exercer uma influência significativa no gosto das instituições e agentes do sistema, em particular no circuito comercial, mas não só. Isto determina, por vezes, que o trabalho artístico historicamente associado ao género masculino seja mais valorizado. 3) O trabalho artístico das mulheres, por sua vez, continua a ser essencializado por diversos agentes, isto é, muitas vezes é relegado a uma função de representatividade. O trabalho artístico de mulheres muitas vezes é exposto no âmbito de “arte feita por mulheres”, o que pode contribuir para reproduzir uma falsa especificidade do trabalho artístico das mulheres (a ideia de que a arte feita por mulheres é necessariamente diferente, mais “frágil”, mais “delicada”, mais “sensível”), ao invés de o admitir ao cânone artístico e assim o diversificar. 4) Porque o trabalho artístico das mulheres é monetariamente menos valorizado, o sistema tende a dar visibilidade ao trabalho produzido por homens. Muitas vezes se perguntam porque os artistas homens têm mais sucesso. A verdade é que a própria noção de sucesso é masculinizada, ou seja, o sucesso é definido por critérios de valorização monetária das obras, exposição mediática e circulação internacional que dependem dos sistemas de validação predominantemente masculinos de um sistema económico capitalista. Importa pois pensar nas noções de sucesso que o sistema artístico perpetua e atentar a outras formas de sucesso que a noção dominante muitas vezes torna invisível. É através destas formas que o género condiciona e determina, de forma prévia, a arte que nos é dada a ver, mesmo que não nos demos conta dele.

 

6. Sou curador/a e quero fazer uma exposição só com homens, posso?

 

Legalmente, sim, pelo menos em Portugal. Em muitos países já existe regulamentação da representatividade em instituições culturais públicas de forma a acelerar um processo de equidade representativa e de responsabilidade ética e social no campo artístico e alinhar a instituição com os públicos que serve e com o bom senso. Noutros países apenas é legal fazer exposições só com homens, uma vez que às mulheres é legalmente interdita qualquer actividade criativa ou laboral. No entanto, a arte contemporânea entendida não só enquanto intervalo temporal de produções artísticas datadas, mas como território articulado pela falência de meta-narrativas, pela desconstrução de identidades monolíticas ou essencializadas e pelo questionamento de dispositivos discursivos, deve ser acompanhada de um posicionamento curatorial que não oblitere estas predisposições. Ainda assim, legalmente pode fazê-lo, assim como pode realizar exposições em que apresente apenas obras ou objectos produzidos por unicórnios, girafas, rinocerontes, ananases, bananas ou alfaces se achar que essa é uma prática ética e esteticamente responsável. Também pode nunca incluir em exposições obras ou objectos produzidos por unicórnios, girafas, rinocerontes, ananases, bananas ou alfaces se achar que estes seres míticos e/ou vivos não existem, não os conhece, não lhe ocorreu, não pensou neles enquanto artistas ou se acreditar que a qualidade artística das obras ou objectos executados por eles é menor e não é digna de integrar uma exposição, ou não faz distinção entre os seres vivos produtores de obras de arte, se achar que essa é uma prática ética e esteticamente responsável e válida.

 

7. Uma curadoria/direcção feminina pode resolver o problema da desigualdade de género?

 

Embora haja cada vez mais mulheres a assumir funções de curadoras e directoras, nem sempre se encontram motivadas por uma agenda feminista. É certo que diversas figuras têm sido responsáveis por iniciativas que procuram “diversificar o cânone”, nomeadamente em instituições de proa como a Tate Modern, onde se tem assistido a um aumento de exposições individuais de artistas mulheres sob a direcção de Frances Morris. É preciso, no entanto, ter em conta que nem sempre uma direcção feminina equivale a uma direcção feminista, sendo muito frequente que curadoras, galeristas, directoras reproduzam, consciente ou inconscientemente, não só o cânone artístico masculino, mas também práticas sociais machistas, como por exemplo galeristas mulheres que preferem representar mais artistas homens por apresentarem melhores perspectivas de carreira, ou mulheres curadoras que expõem poucas ou nenhumas mulheres, quer porque procuram uma legitimação do meio expondo artistas homens de grande notoriedade, quer porque não se apercebem nem questionam a naturalização do cânone masculino, ou porque não se revêem numa agenda feminista. Apenas uma direcção esclarecida e informada pode resolver este problema - e esta direcção pode ter muitos géneros.

 

8. Tenho receio de afirmar publicamente que sou feminista porque receio que a minha actividade (artística, curatorial, etc.) passe a ser rotulada ou menorizada. O que devo fazer?

 

A auto-censura é mais um sintoma de sexismo internalizado. Identifique todas aquelas pessoas que o/a menorizem ou rotulem e afasta-se delas o mais rapidamente possível.

 

 

 

Dúvidas, pedidos de esclarecimentos e críticas podem ser endereçados a: pipicolonial@gmail.com

 

 

 

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